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domingo, 30 de dezembro de 2012

Paisagem penhense


Céu nublado, Céu chuvoso
Paisagem vasta, instável
Casas até onde a vista alcança
Vento sem brilho dança
Sem as gotas da chuva de agora pouco
Mas elas logo retornam, abrasantes

Recortam a paisagem
Os relevos cinzas
Por vezes multicolores
Mas nada comparados aos Açores

Se vão na memória,
Voltam na revisita
Permeando um mundo limitado
Mal acabado
Que sempre muda
Nunca se cala
Insatisfação?
Não, incoerência mesmo.

By: Bruno

domingo, 23 de dezembro de 2012

À Lêdo Ivo


Hoje o corvo agita suas asas, se fartando nos meus umbrais
Hoje espreitam meus tecidos vulneráveis, os terríveis chacais
Enquanto minha tosse sufocada ecoa pela boca tapada
Alagoas se assemelha hoje, à uma capela rachada

Para mim, uma cena fatal, gritos vagos e surdos
Mas a gradativa saída da luz dos olhos
Denota um desespero nem leve nem agudo
Apenas um desespero bem curto.

O Executor nunca me deixará falar
Do meu desejo de ter-lhe apertado as mãos
Me resta relembrar tua obra, feita com tanta dedicação!

Me resta ouvir tuas histórias através de teus livros
E não de tua voz como eu sonhava, que delírio!
Me resta olhar para um céu que não será mais tão níveo...

Fico eu, herdeiro ilegítimo do teu legado
E do teu espírito, aliado
Afundado ainda mais nas palavras
Enquanto delas - Tu estas livre!

By: Bruno

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Vanitatem I


Olhai, Vênus, o Eldorado que se desfaz
Olhai por última vez as terras soberanas
Dotando-se de um perfume que plana
Percebe? De mofo e decomposição a vida se refaz!

As paisagens formosas ficarão na vã memória
Assim como os afãs brumosos se mancharão
Da vulgar necessidade de perpetuação
De um destino que se repete merencório!

Então abra teu vestido sacerdotal
Como o monge abre as portas dos templos
Porquê hão de ser diferentes os tempos!

Tempos que tornarão teu culto tão execrado,
Minha querida irmã de feminilidade tão apertada
Quanto o teu pranto calado!

By: Bruno

domingo, 2 de dezembro de 2012

A serpente emplumada


I
Quando Quetzalcóatl passou pelo céu do meu delírio
Com aquelas asas de cobra imortal
Me pungindo com uma surpresa fatal
Eu pude sentir no brilho litargírio

Daquelas plumas metafísicas, transbordar uma paz líquida
Muito mais pura do que aquelas presas nas garrafas
Contudo muito mais bruta e incorpórea do que as folhas da Anafa
Fazendo meu sangue circular de forma mais pálida e lânguida!

Que estranha danação, daquela criatura
Condenada a mergulhar no céu e voar no mar
Desencarnada da vã matéria e do poluto ar
Encantando a mágica filosofia de um povo mesoamericano
Com uma emplumada ossatura, ah como deve ser uma grande tristura!

II
Ó serpente emplumada, que queres das terras por onde passas,
Orvalhando a fresca fertilidade nas folhas secas da relva
Ascendendo os alimentos físicos dos bichos da selva,
E os alimentos espirituais dos povos de eras passadas?

Um coração humano ainda quente te faz alimentado para prosseguir tua eterna viagem?
Teu corpo, cuja extensão longuiforme ressona o canto da natureza inteira
Consegue distinguir o louvor no templo escondido na densa folhagem?
Porquê partes tão apressada, ó Serpente trajada tão à tua maneira?

Bom, vá, vá! O céu anseia teus sussurros com singulares ideias
Tu não pertences ao céu do meu delírio, nem ao paraíso perdido 
Tu pertences à eterna peregrinação, bem como ela a tu, meu fragmento contorcido,
Da realidade dos tempos pagãos, que me acende as pequenas candeias
Do advento da inspiração!

III

Ó doce sibilo que aquece o ventre da humanidade
Instrumento de esperança e prosperidade
Ó abrupto bater de asas brancas que ceifam
Os carmesinados virginais que vosso altar forram

Mal desponta o vento, e o breve alento
É o indício da nova partida, retorno ao ciclo ourobórico
Correspondido nas terras ameríndias o almejado milagre biológico
É hora de debruçar o corpo sobre o etéreo firmamento

Vertendo-se atemporal, indolentemente 
Unindo-se a um panteão mágico, serpentinamente
Vai, parte de uma vez, não retornes ao céu do meu devaneio
Nâo vês, que como muitos, à tua mitologia eu sou alheio?

IV

Mas estes tempos belos e tristes bem que podiam se valer de teu oratório
Uma pena que ninguém mais compreende o rastro sombrio e inglório
De tua passagem, entremeando as nuvens em um movimento ondulatório

E então mova-te por cima de longínquas terras, campos santos e bosques pagãos
Passando por povos que se acham tão equidamente sãos
 - Sem achar absolutamente nada, que constrição santa!
Retorna-te ao símbolo adorado do caduceu!

Enquanto eu repenso se te coloco ou não
No meu grimório tão infame e nebuloso
Quanto o teu passado ritualístico e glorioso!

By: Bruno

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Ode imoral (O sangrar das feridas remete à figurações daguerreóticas)


A sombra que tenta imitar a postura caprosa do reino caído
Não tem a inconstância do firmamento atmosférico da ionosfera
Mesmo assim, como mão que com seus dedos lentamente se apodera
O vulto vicioso dos pecados quer me enterrar no solo carcomido

Os meus olhos a pousar de soslaio nas coisas terrenas só remetem à inerente tristeza
Nos sonhos que cavalgam com os pássaros por um campo de fresco gramado
Logo tomam a ígnea forma da desesperança ao defrontar-se com o descamado 
Epitélio da realidade concomitente com reverências e despedidas sem belezas...

Então eu espero o sangue de Cristo secar da boca de seus servos
Para que eu não sinta o ulular rubro daquele sangue exorcizante
Que em meu coração dança como velhos e lascivos amantes
Ah como ultimamente tem me doído bastante a central do nervo!

Eis que foge o meu coração do mundo terreno, procurando mesmo esgotado
Uma voz vivaz o bastante para aguentar o espetáculo das bruxuleantes
Biwas tecendo calmos sons sobre o cair das pétalas de uma assombrada 
Cerejeira e sua personificação cambaleante...

Ah sinistra demência, queria a paz que tu proporcionas
Com o olhar experimental e daninho,  afastando toda a penosa realidade
Vertendo todo o castigo dos crimes incomensuráveis em inimputabilidade...

Porque os sonhos que caem sobre minhas pálpebras fechadas sempre se relacionam
Com a ebriedade latente das camadas mais espessas de loucuras dos infames astros
E com o efeito placebo deles, me envolvo numa espécie de eplastro
Afim de tentar açaimar os gritos imundos, dolorosos e sem rastros
Do meu desespero.

By: Bruno

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Fragmento inconsciente (O lamento da subjetividade é a objetividade)


Pessoas só existem na memória de outras pessoas
Por isso há tantos tipos de mim
Não que haja de fato vários eus...
Eu só estou dentro de pessoas diferentes
Só existo dentro de pessoas que sabem que existo
Então minha existência não é vaga o suficiente para ser chamada de memória
Nem real o bastante para me fragmentar em várias partes
Eterna verdade vazia e imperfeita!
Porém esta pequena verdade é conectada ao céu
Formando uma única consciência inconsciente e coletiva
Na mesma ressonante frequência da Terra
Sináptica frequência magnética
Equiparada a uma rede neural, rede atemporal de informações
Memórias devaneadas, realidades falsas e tótens...
Meros mecanismos de identificação e formação de protocolos
Sensações impressas arquivadas, incoerências mútuas relativizadas
Arquétipos escondidos em álamos adormecidos
Imagens pré-dispostas pregadas nos mares loucos
Desajustes nos gritos agonizantes
Eterna recriação do sentido eterno
Biológicamente monstruoso
Personificadamente humano
Como o poente místico
Coagulando os impulsos e manifestações
Escondendo os sentimentos nas sobras de personalidade
No delírio familiar conjecturado
No devaneio rudimentar dos infantes
Para sempre alienado, inacabado
Religiosamente sacrificado
E salpicado uniformemente
No despertar das desesperanças
No ressonar dos desesperos de todos os eus curvilíneos
Que clamam por algum traço impalpável, em vão
Na linha metafísica do destino...
Do Desatino...

By: Bruno

To Alice


If I were you my little Alice, my sweet Alice
I never have left Wonderland
Now that you're back, you've been caught by the fangs
Of so much destruction and Malice...

What's wrong, Alice?
Don't you know that Madness is not a state of mind?
Don't you know that sanity is nowhere, here to find?
Oh God! You where swallowed by so so so much Malice!

Yes I can se behind your pretty face
I can sense your very dark lace
Crushing you bit by bit everyday
And you never needed to say...

Strolling all alone across the corrupted Wonderland
I see that several visitors are also gathered here,
having an idle, little saunter on this old graveyard... Just like you

("The dead are furious with you!
As you're wasting your precious time!") 

Poor of you! Being guided by the Devil's hands
How can you longer in this timeless hell? Why did you go back there?

Well, everything I see, its a distorted hallucination
It's hard to guess the future in the short-sighted world.
You are damned to repeat this cicle endlessly in your reincarnations
And the only thing left for you was the bloody Vorpal sword! 

Ah Alice... We can't go home again. But it's not a surprise, really!
We are not among the few ones who knows their paths
Trapt in the eternal search for the most terrible truths 
I see now, how is convenient dissociate from a reality that you can't rely!

By: Bruno!

sábado, 10 de novembro de 2012

O ruído


A redundância progressiva do som que arranha a madeira
Percorrendo todos os cantos da minha mente,
Raspando de uma forma bem rente
Como que incomodando o crepitar de uma pequena lareira,

A minha consciência já aturdida e ramificada.
Em sucessivas roeduras, ronda o misterioso vertebrado
Atraindo as orelhas sagazes dos felídeos igualmente incomodados
E assim a agitação interjeita-se em minha noite mistificada

Vá e te esconde na tua antítese de animal 
Que a racionalidade precária de muitos abomina
E vê se teu futuro assim não se determina

Como comumente acontece, porque a morte que te apetece
Significa o fim do meu inusitado incômodo
E a tua volta ao ciclo do carbono!

By: Bruno

domingo, 4 de novembro de 2012

Natura


O manto do verão cobre os céus
Sem a manchada cor das chuvas
Nos apalpando como emborrachadas luvas,
O vento seco escorre, anunciando os vários escarcéus

Que desmancharão as flores descuidadamente
Transformando-as em canções perdidas
Sobre uma primavera moderna e suicida
Que mal lembra de suas árvores ressequidas costumeiramente

Ah transitória aspereza, tu assumes tantas formas 
Tens tantas harpas a teu serviço, há tantas carícias 
Ignoradas, mas ainda existentes, benéficas eufonias

Teu ciclo a ser seguido como velha norma 
Não achas que tens ficado repetitiva?
A coruscar tua luz e teu céu azul com tanta alegria?

By: Bruno

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Poema da reforma


Mozart tocado com um serrote
Beethoven recriado com o bater de panelas
Num sobressalto: Adágios
Numa martelada: Allegros
A mazurca de Chopin ecoa estraçalhada com a lixadeira
Schubert apregoado numa madeira
E a Clara repartida com uma maquita
Faz-se juncada ao resto ao virar de uma ampulheta quebrada
No concerto em dó menor regido pelas tintas e pincéis
Que percorrem as paredes, trazendo a nova cor das nuvens da imaginação
Fazendo o infinito rolar ametista no contorno das superfícies da minha realidade
Enquanto as orquídeas descansam sem florir no quintal
E o sol despeja sua luz sobre os telhados como uma torneira
As airosas gotas de chuva iluminam o horizonte violinístico
Tornando difícil respirar em meio ao forte gosto da tinta
O alçapão ganha então novo solo envenenado
Para que sob minha cabeça toque uma valsa arremedada
Como água que escorre e lava
A roupa suada do verão antecipado
E sem vivenciar as inundações do sono
Me sinto uma lua sem acordes
Contentando-me só com os guturais
Até minha sede voltar voluptuosa
Sustida pelos ares artificiais
Vertido pelo vinho levado aos lábios
E a melodia me mostrar as serras floridas novamente
E as libéluas que roçam a água de um lago
Nem imaginam que num vago começo de novembro
Paganini encerra a entoada destas palavras desconexas
Enquanto eu penso nas revoadas de andorinhas
Que de semente em semente, reformam uma floresta inteira!

By: Bruno

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Ah...


Ah doce humor
Do sopro embalador
Da brisa fria sobre as casas
Faz levantar as pequenas asas...

Ah dolente doçura do sons da passarada
Provoca um miado e uma porta arranhada
Afastando as imagens das florestas de pinhais
O gato nos monopoliza com suas artimanhas fatais.

Ah cores sóbrias a serem pensadas
A tingir um cômodo ou dois à maneira
Da vontade ébria que vê a cumeeira
Sem compreender as formas lá arquitetadas.

Ah labuta, devorando impaciente as semanas,
Marteladas, pinceladas, transpirando dedicação
Ao enlace dos cheiros que emanam
Suspendendo a respiração.

Ah céu vago da cidade
Visto como uma negra tela,
Das sujas janelas
Onde você colocou as estrelas?

By: Bruno

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Decepção às margens do Jaguaribe


Quando Tupã se faz absoluto
Personificando a trovoada abrasiva
Que faz a revoada fugitiva
Tentar de tudo para evitar seu tributo

Senti do céu a etérea tribuna
Remoendo do crucifixo, a catequese,
Trovejando no céu a infame exegese
Das lesionadas indígenas runas

Sob o aroma almiscarado da imaginação
Arfante enjoo em brasa a condoer o ser
A tecer sobre a fúria desse Deus-trovão
O ritmado estrondo do seu alvorecer

Conforme a natureza padece inapta 
E nós sem lástima a vemos como uma tela
Distante e grossa, a sua beleza inda rapta
Nossa alma silenciosamente, posto que é dela;

Titã Gaia a abrigar sem nos dar consciência 
De estar nos abrigando, sem reclamar 
Da vã irreverência
Da vaidade das cidades que estão o céu a arranhar

Ele percebe com sua onisciência natural
Que o ser humano que era tão transcendental
Não é nem a sombra do mais simples musaranho,
Suas lágrimas riscam o céu como chuva de estanho

 Deve doer tanto
Um coração antes extasiado
 No entanto
Hoje meramente catequizado
 Perdeu o encanto

 E chove lá fora
Como chora o coração
E ninguém nota a lânguida emoção
Desse Deus de outrora.

By: Bruno

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Via Infinitum


O prisma das asas das Drosófilas
Refletem os meristemas dos sôfregos
Sonhos que preenchidos de ideais cegos
Prendem-se a um ciclo de vontades necrófilas

Sem jamais encontrar sua eclosão
Forram o chão de distrações compulsivas
E desmancham com as pisadelas efusivas
Como moscas, atraídos pelo nefasto lampião;

Juntando-se ao fado da triste poeira que habita
O mesmo chão, eterno lamurioso, alvo do eterno tormento
Testemunha dos imortais mistérios, mas sem argumento
Para provar que viu quedas, viu o caminhar dos sonhados eremitas

Sem nunca ter palavras para expressar esse intangível,
A estranha música que percorre os ouvidos do universo
Mística cadência rítimica a escorrer por entre os dedos de um verso;
Nele também ocorrem as telúricas cerimônias inexprimíveis!

Tocando os céus com seus relevos cordilheirais
Cansado da voz dos ventos, coitado! Não tem asas para sentir
A natural entoada das tempestades serpentinas, ou o próprio vento bramir
Sua voz tenórica como a dos oceanos, que o tocam com seus mantos colossais

Porém tua alma turva, tua grande alma natural
Por mais que foste semeada com pranto carnal
O pranto de sangue do fastigioso punhal
Não foste feito, meu querido chão, para apreciar a boreal
Certeza das planícies fecundas e verdes, gritadas e cheias de leite
Das marmotas ao pleno palpitar de seus corações, ao deleite

Dos delírios do universal espírito, do qual emana, tenebrosa paz
Criando assim, como se testemunhou, sombra e luz infinita
Sendo que, constatado, a luz caiu, orgulhosa e inaudita
Caiu e o alvo foi tu! E ninguém se ocupou com a calamidade que caiu e feriu-te fugaz!

Ó semeador de passos, de nós plantas e de tocas para as pequenas vidas,
Presente em todos os mundos! Ó eterna lei da inquietação mundana!
 – Como o entendo, quando por força do homem, cai uma árvore soberana!
Imagina o quão perdida é, desde um broto até a alta copa, tal solene ida...

 – Eis a opinião das árvores centenárias, sobre o chão que habitam...

By: Bruno 

domingo, 30 de setembro de 2012

Ainda não é tempo de colheita...


Algumas de minhas poesias estão amadurecendo
Ainda não é tempo de colhê-las de seus galhos
E dá-las a este mundo falho
Para que ele não continue apodrecendo

Mesmo que algumas folhas amarelem
E caiam, a fotossíntese nunca para
Porque os acontecimentos que a propelem
Levados são ao alento do acaso que sempre dispara

A nível celular, os meristemas poéticos
Da mitose das palavras e dos crescentes
Assuntos, e, as vezes dispermáticos
Como os meus vários sóis poentes

Minhas visões, destroçadas
Como os tronos dos reis,
Depostos por suas próprias leis
Imploram tão alvoroçadas

Por um lugar maior na minha sanidade
Alimentadas pela minha irritada vaidade
Que ainda não decorou a hermenêutica da loucura
Que me quer com tanta diabrura!

E a imagem gasta que tenho do céu,
Proveniente dos meus olhos sóbrios
Quase não tem lembrança minha, que ao léu
Das minhas madrugadas vivia sem ódio

E agora, colhendo o orvalho versicular
Que deitou-se nas minhas folhas
Observo uma pequena Rolha
Que agora voa de forma circular
Na minha cheia cabeça...

Gosto do céu bem nublado,
Pois só as mais tenebrosas tempestades
Entendem como é selvagem
O clima aqui dentro deste templo tombado
E só o sol sabe o quanto eu fujo da claridade 

Mas em dias de vento forte
É mais difícil atear fogo
E é só o fogo me dá a euforia
De esquecer e ir embora logo,
O fogo é meu eterno passaporte

Para a ardente metafísica 
Da arquitetura aurórica
Das sonoras labaredas,
Remédio infernal e opórico 
Para os paranóicos em astrofísica!

E entre os bocejos dos deuses
Percebo o riso de segundos
Refletidos no lugar mais fundo
Dos meus próprios olhos
Que eu sei que um dia serão seus

Quando lerem neste poema a conciliação
Dos orientes da minha realidade
Que, com toda possível crueldade
Despeja em suas mentes, a minha rústica constelação!

E então eu pergunto as horas
A uma aranha que passa quietamente na parede,
E inesperadamente ela me grita:
  – É hora de parar!

By: Bruno

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Border Village Dali


No piso de rocha os passos impressos 
Sob o entoar mais solene que o homem jamais produziu
Marcaram tantos corações com sentimentos inconfessos;
Nada iguala ao valor purpurado da nostalgia que me pungiu!

Num momento ínfimo, apenas por mera passagem
Talvez nem houve tempo de se descobrir que a única árvore
Estava dando frutos, nem de também se perguntar se era de mármore
A pedraria que compunha as poucas casinhas da paisagem.

Mas nem o som dos Chocobos encobriu os sujos mistérios 
Que a vilinha muito bem disfarçava, até a facinação pelo moinho
Os levar a descobrir que estes tais segredos eram muito mais sérios,

Entremeando assim, aquela pequena vila no tear delicado
Da trama, à medida em que eu adensava na continuidade 
Daquelas lutas e fugas sem destino marcado;

Para nunca mais retornar para aquela melodia
Nunca mais ver aquele poço, aquele laguinho 
E percorrer aquelas rústicas portas, como uma galeria... 

By: Bruno

*Leia com a música!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Estiagem


Em uma xícara pesada 
Deposito meus lábios
Enroscando na pequena asa
Meus dedos trêmulos

Enquanto lá fora
O céu nublado
Se faz nasalado
Levando embora

A chuva que eu queria
A tempestade que não podia
Aparecer e nos envolver
A tempestade que eu tanto queria ver!

Queria eu tocar os telhados
Como tu tocas em sua passagem
Tão breve, em tão escassa folhagem
Nestes mundos tão afilados!

Nas telas das minhas pupilas
Pintada foi a serenidade
Peculiarmente destilada
De etéreas eternidades...

E em um pequeno copo
No qual deposito
Todo o meu escopo
Incerto e sem propósito

Espero sem pressa
A estiagem acabar
E assim se produza a nova remessa
De flores a desabrochar! 

By: Bruno

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Lapso Matutino


Olhando fixamente os desenhos do azulejo
Desapego-me dos oceanos de lamento
Dos quais desembocam o meu Tejo
Aos sons de um violino bem lento.

Sem atinar qualquer razão, vai envelhecendo
Toda a vida, bem como todos os versos
Numa sinistra lucidez, constituída de padrões irreversos
Fustigando os lestes da existência conforme a vida vai acontecendo.

E por mais que as estrelas refutem suas condições atemporais 
Nossas filosofias e religiões, também ditas como imortais
Não passam de piadas derramadas na essência dos viventes
( — Em suas absortas concepções estelares.)
O amor ainda assombra-se com a ausência de pureza
Deste contemporâneo, eis pleno o século da clareza.

E então, reconhecendo diversas figuras nos traços de água
Que escorrem nos relevos dos mesmos azulejos 
Reconheço-me como um escravo cardíaco dos lampejos
Astrais das estrelas; das cantigas das infinitudes opacas.

Ratifico a deliriosa certeza dos sonhos grandiosos
Deito as letras rápidas nestes versos como que invocando
A magia austera das vitrines, das praças, das ruas arborizadas

Como quem segue à risca um contrato oneroso
Sem ter devidamente acordado verbalizando
— Nada se seguiu de forma planejada.

E há quem tente especular, sobre as arribações do tempo
Inaugurando cemitérios, propagando o mistério mais sombrio
E questionando o ócio necessário da poética, que contraria
Os esforços de sobrevivência dos que apenas vagam como o vento.

( — E é este pensar que as estrelas compreendem por blasfêmia!
Porquê, certos questionamentos inevitáveis, certas mnêmias
Remotas, são fatais aos olhos!)

E então o esverdeado do azulejo me remete ao vício absíntico
De ter todas as flamas, todas as tempestades, arraigadas  
Em minha pequena essência de menino, e então cerro as pupilas castigadas
Por lágrimas que caem no sensitivo momento em que cai sobre mim o entoar cáustico,
De toda merencória tragetória do mundo e me confirma: 
Sou só um menino fitando distraídamente o azulejo.

By: Bruno

sábado, 15 de setembro de 2012

Os astros


Meus dias amontoam-se 
À deriva
Como grãos que apregoam-se
De afirmativa
Forma, uníssona.

Meus sóis congestionam-se
Ao merisma
E confusos ressonam-se
Entre furtivas
Luas altíssonas.

Estrelas repovoam-se
Não minhas
No frio, aproam-se
Sem sombrinhas
No meio da noite.

Deimos afeiçoado é
Por minha virtude 
Enlaçada em vicissitudes
Como a ociosa maré.

Fobos comenta
Sem ser notado
Sequer ouvido
E logo se ausenta.

Curioso em meio 
À tantos sons
Exclamo meu enleio,
Meu penúltimo enleio!

Ah visões, visões!
Perdi a vida
Sem verdes razões!
Talvez reste tempo,
Para embeber a última ferida!

By: Bruno Borin

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Faceless


Como me embala esta laceração!
Como meu sangue escorre mudo!
Instigando o lânguido veludo
Da minha initerrupta imaginação.

Que aflição ao ver tais pálpebras
Fechadas a mim, escondendo aquelas safiras brutas
Das infecções da minha alma poluta
Em procissão sinistra pelas minhas vértebras
Que aflição ao ver tais intenções indecifráveis!

O véu neblinoso enrruga as dobras do meu coração
E ocultamente inicia mais uma dor em nome da sua face
Interpretando mil vezes cada expressão, no eterno impasse
De resolver esse mistério que aguarda se tornar mais um clarão

E a lua envolvendo meu sonho como envolve uma boneca em ternura
Desola ainda mais meus pensamentos me trazendo seu isolamento,
Me selando ainda mais perto daqueles lábios enigmáticos e, tremendo,
Eu impassívelmente penso no caos em que está a minha nervura

Enchendo-me do turbilhão sonâmbulo destes desejos
Percebo o quanto eu não sei sobre aqueles olhos vítreos,
Sobre aquela face constelada por meu curioso espectro...

Então me pergunto, tal como jóia rara e intocada
O quanto destas memórias permanecerão enterradas?
Me fazendo abraçar a solidão e ter minhas asas arrancadas
Repetidamente...

By: Bruno

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Em um ônibus

Que formas! Que formas!
Que estas linhas tortas
Têm em suas almas mortas
De concreto.

Ó Cores e mais cores!
Que falta de amores
Em cinismo e horrores
A cidade roda direto

Mas também há elegância,
Luxo, volúpia e ganância
No ilustríssimo Iguatemi
E em sons como dó, ré, mi

Tagarelice e risada em um ônibus
Bem como rimas sem ônus
Suor espargido pelo sol refletido
Flores secas e repartidas
...

Como é bom ter dinheiro!

By: Bruno

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Raw fish salad


A whispering of despair corrodes the heart
Of who says it...

The sound of the death seems too complacent
Wanting us to be ourselves in the last minute

It's so uselless this will of existence
Tearing apart any scream of help

Because when everyone's trying so hard to loose
Someone is all alone trying to run into some light


So in this tragicity... The rivers flows in so deeply peace
While the moon seems to be so wistful about the times of wild winds...

And when the river shows itself more pitifull
Demons are created to be our dreadful devours

Whith bitter tears they walk
When we so quietly fish

Without ever knowing this terrible fate...

By: Bruno

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O riso dos deuses



O vento errante levanta nas horas mágicas da noite
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha
Como uma força invisível a impor o seu desejo sobre a Terra
Antes que mentes que fingem consciência procurem significados diversos
Antes que examinem a elegância secreta dos atos soturnos da noite
Em um tão remoto antes que talvez achem isto tudo um absurdo inexistente
Mas ainda em um antes indefinido
Num sentimento inexpresso
Longe de caminhos e de metas senão a de errar
Numa lucidez sufocada por um riso escarnioso

E o som não é de vento! É apenas um som abstrato
Sem verbalismos;
 E sem verbalismos sobre a cor da poeira também,
Pois só o que corresponde a algo humano ali é desassossego
Nada foi sentido, nenhuma imagem foi arremessada aos olhos senão aos da noite!
Nada foi ouvido senão somente pelos ouvidos da noite!
Ó experiências sensoriais engolidas pela imensa ausência da noite!
Num só antes! Um Difuso, profuso, inexorável e imponderável antes!
Ó concupiscência inorgânica e arfante daquelas horas, tão efêmera!

Me disseram que todos perderam uma bela peça de estética sublime!
Também me disseram fatuidades sem propósitos, traços amórficos...
Dizeres irrecordáveis sob a luz cansativa da alvorada

Me disseram com vozes vagamente oscilantes
Como se seus sussurros se empilhassem em meus ouvidos
Pouco antes de abrir os olhos;
 Como se não pudessem controlar o desejo de contar
A alguém, alguém que também pertencesse a uma irrealidade latente
Alguém que já ouviu falar das assombrosas horas da noite

Horas impertencentes à qualquer memória senão a da própria noite!
E embora ela seja abstrata demais para apreciar tal diletantismo
Eu prefiro acreditar que ela ficou espantada com essa surpresa!

E sabendo disso, vertendo-se em apenas lumes azuis rodopiantes,
Os Deuses riem num misto de escárnio e tédio...    E sopram...

By: Bruno

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

À tua caveira, Villon!


Para o início desta subversiva cançoneta
Enchi o salão com centenas de deploráveis figuras
Ordenei então o tilintar das taças e a mudança de posturas
Posto que vossa alcova é tão fútil quanto o girar da maçaneta

Sob os tetos abobadados impregnados do fumo e do bom vinho
Escutai atentamente o entoar infame que prossegue em vossos crânios
O alento fresco do desespero a sentar nas pálpebras orvalhadas dos gerânios
Edifica a solenidade daquela taciturna noite e eis que um nome eu vos sublinho:

Villon e seus enforcados... O primeiro maldito!
Mas vos pouparei da macilenta dramaturgia, não há surpresas afinal
Somente o espanto causado por tamanha sensibilidade na rima medieval
Do gênio que assumiu a forma marginal e odienta que vos digo!

O Deus da loucura será reverenciado, afundando suas garras
Ensanguentadas em vosso coração que emite um grito sem terror
Enquanto soluça as poucas memórias boas, como todo bom aliciador
Depositando todo o rancor e as coisas ruins em pequenas jarras

Para o sacrifício onde a pureza será rejeitada em nome do sagrado alimento
Na única gota de sangue a escorrer do dedo perfurado
Como a lágrima que se despreende do olho cobiçado
Os sussurros só serão apreciados se acompanhados do tormento

Que vos prende devidamente com promessas e lábios quentes
Deturpando o bom senso que um dia houve de ser ajuda
E hoje, figura como um empecilho aos desejos languentes

Alimento este, que se faz ainda necessário
Para as poucas almas que dela tiram sua existência
Seletas almas, que se abstém de seus calvários

Pois ao se perderem, encontram-se
Em paradoxal eternidade
Em nuances do vórtex onírico fazem-se
Imorais imortais, maculados e iluminados

Que queixam-se de flutuar ainda presentes no mundo
Queixam-se de serem pinceladas bruscas em nuances claras
De quadros compostos de artérias retalhadas por cimitarras
E seus olhos são somente ouvidos pelo silêncio mais fundo

Ah Villon... também lamento os tempos idos
Mas não empedeço pelas moças dos corações partidos
Aquelas para as quais todo amor é temeroso
E por sequência todo arrependimento se mostra insidioso

Mesmo que a sua figura não me inspire a descer ao mais baixo
Me concede o entendimento das mentiras do frio lago do esquecimento
Embora a visão de corpos azuis apodrecendo

Seja pesada demais para a minha débil resistência
Eu compreendo a beleza que há nessa queda inevitável
No entanto, a combustão das pétalas destas asas é imutável
Exatamente como a árvore que começa a ressecar pelo alto, segundo minha ciência

Configurando uma desfolhagem com uma ligeira torção do corpo
Causando uma impressão tão mórbida da realidade já morta
E mesmo na escuridade das ideias tortas

Há beleza e sensibilidade nestes escândalos da alma;
Nos pactos mais imorais e nas vidências mais fantásticas
E eu me pergunto, até onde vai esta vã inquisição onomástica?

E daí que se suceda o pior?
C'est la vie, não?

Anda em mim o seu testamento, sem rubor
O meu pensamento sobre seu Epitáfio:

 "Repousa e dorme aqui neste lugar
Alguém que com flechada o amor matou
Um bem pequeno e mísero escolar:
François Villon foi como se chamou
Nunca ele terra alguma desfrutou
Mesas e cavaletes, pães e cestinhos
Ninguém o ignora, tudo ele doou
Companheiros, dizei estes versinhos:"

Andei errando por funestas estradas
Eu, paisagem fustigada
Na solidão abandonada

Por toda a parte a rir o incêndio
Em pleno e soturno silêncio
Debaixo de uma pura visão celeste.

By: Bruno

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O Inesperado


    Há encontros delineados especialmente pelo destino, para nos pôr a pensar. Enquanto havia rostos com expressões diversas, a que era reservada a mim, era a curiosidade por um discurso singular, promovido por quem depois eu descobriria ser um coronel aposentado, pelo qual eu manifestei interesse por palavras tão conectadas à sua experiência pessoal de vida. E conforme o tempo caminhava sozinho a completar a nossa estadia no mercado, na fila de um caixa, de modo inesperado continuamos a conversar. Se mostrando um homem religioso, aquele ser cativou a minha simpatia. E neste momento, invadiu meu corpo uma sensação de gratidão, por ainda não ser orgulhoso ou cético demais. Porque mesmo respondendo não ser muito religioso a ele, ele continuou seu discurso, confirmando a possibilidade de um aprendizado valioso com aquela situação um tanto inusitada.
    E enquanto as demais filas daquele mercado fluíam a nossa conversa paralisava o tempo, nos deixando separados da fluidez moral da qual o mesmo tempo que recaía sobre nós, aguardava o momento certo para ceifar a vida daqueles mais próximos à luz que nós. Aqueles conhecimentos que não convém compartilhar com quem possivelmente ler, fortaleceram minha alma, e vendo serenamente aquela conversa, confesso que senti um sofrimento idêntico ao da alegria de conhecer uma das poucas pessoas que ainda conservam em si uma sensibilidade anormal, uma orientação exclusiva de notar o que nossas próprias trevas tratam de esconder de nós mesmos. Como quando alguém descobre que as sombras das árvores podem proporcionar um abrigo seguro.      

By: Bruno

sexta-feira, 10 de agosto de 2012


Colocarei até a ortografia nas mãos do carrasco,
Pois há um belo retrato a ser feito
Nas bruscas interrupções do pretérito imperfeito

Que nasce de um raciocínio falso
Pretenso e orgulhoso sobre si mesmo
Do animal idólatra construindo a esmo

A idolatria de um amor que é subtraído
Estúpidamente das coisas essenciais
E distribuído entre as criaturas banais

É possível que as anedotas da virtude
Ao beijar uma nuvem
Prejudiquem o ser e o tornem rude

Soletrando internamente o egoísmo
Dignificando o imoralismo do frenesi cotidiano
Até sentir intensamente o amargor do engano

Até que o único traço da personalidade
Seja o sangue evaporado
E uma alma não muito elevada.

E este é o retrato: a natureza pela natureza
Vértebra por vértebra, instinto fluido
Processo findo, decisão proferida.

By: Bruno

sábado, 4 de agosto de 2012

Spleen


Começando a fantasiar múltiplos cenários
Usando as duas mãos inseguramente
Enquanto deslizo suavemente
Por dedos magros de um universo pequenino
Meu coração para, entre uma batida ou duas
Respirando grandes goles de olhos que me abandonarão
Ao acordar, me dividindo em um punhado de nomes
Que se dissolverão rápidamente quando o sol aturdido
Tentar ouvir uma de minhas inúmeras histórias
Mas raramente apareço em sua presença
Tendo ele, apenas que se contentar com minha lembrança
Em suas manchas solares tão horripilantes
Mas enquanto os desejos das minhas pestanas ardidas fracassam
Procuro na maciez da escuridão, palavras que adociquem o significado
De uma queda abrupta mas tão inevitável quanto uma piscadela
Piscadela essa, que imita o gotejar orvalhado que se prende às folhas
Nos meses em que as chuvas delineiam um misto de desespero e salvação
No pequeno firmamento ecossistêmico dos insetos de uma fauna desesperançada
Despedaçada a cada dia por braços que deviam acolher e não condenar
E é assim, eu vejo uma velha árvore onde só há o resquício de seu tronco
Um arbusto onde é hoje um gramado pisoteado
Uma folha de relva onde só há cimento
Mas não vejo mais flores no asfalto
Acredito que estas já estão desistindo, não querem mais toda essa desilusão para si
E não há mais o que se argumentar
O perdão não é mais cobrado, é enfeitado
Enfeitado de irreversibilidade.

By: Bruno

domingo, 29 de julho de 2012

As flores choraram negro


Como borboleta voando em fim de Julho
Uma menina agachada se lamenta
E cheia de tristeza, se levanta
Sob horríveis olhos, sem orgulho

Com os seus fitando o céu tropeçando
Sentindo o frio deste crepúsculo perfumado
Deixando no pequeno riacho maculado
Um barquinho amassado, fustigando

Com um pequeno delírio as cinzas vogais
Ultramarinamente, sem pretenção
De aniquilar os tédios fatais
Como pássaros sem ambição

As orquídeas choravam orvalhos negros
Enquanto circulavam suas seivas espantosas
E então vi destilar nos gestos íntegros
Da menina, as mesmas feições infecciosas

Manchadas de lumiares elétricos,
Dos ventos saudáveis de inverno
Que embalam o sono terno
Das bonecas de olhos severos

Dos que por delicadeza
Deixam de se amar
Dos que por esperteza
Deixaram-se abandonar
Em noite qualquer

E então, formando este crepúsculo perfumado, em estreita luz
As orquídeas choraram suas últimas lágrimas
Durante o fosco bater, das asas de estranhas libélulas.

By: Bruno

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Divagações insones


Eu me arremeço na cama escorregando na finitude de um sonho fantasioso
O céu parece transbordar um laranja desagradável
Meio que alegre e triste, por vezes interrompido pelo tempo nebuloso

E apesar dos selvagens pingos de chuva mancharem ruidosos
Uma visão completamente irreal e transfigurada
Injuriada por odiar o dia e arremessar-se às noites nebulosas

Na desconsolação de uma febril solitude 
A lua vem me dar um pouco mais de tragicidade
Observando diretamente a amplidão da minha quietude

Os símbolos, os rituais e as meditações se tornam então
Apenas estranhas formas de lamuriar uma esperança mastigada
Conquanto o esquecimento que se cristaliza parece-me um irmão

Volúpias, seduções e demais feitiçarias são o embalçamento
Das convulções da carência que emerge como um oceano 
Tão nauseabundo e tão eloquente, que é dos demais o seu firmamento

E nas desfigurações dos meus sentimentos, as auréolas do assombro
Sempre deram lugar à essas ondulações nervosas, que
Me forçam a andar assim perdido, na vastidão interminável dos meus escombros

E então vejo meu requiem em um punhado de olhos constelados
Me vestindo de fantasias que me direcionam a diversas salvações
Porque insisto em poematizar todas as coisas que brilhem mais que eu.

By: Bruno

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Borboleta Invertida

O inverno pesaroso inverte as asas das borboletas
Voando através da condolência do ar
Apenas esperando o céu se equilibrar
Entre as tonalidades de suas silhuetas

E o seu cinza habitual, sempre ignorado
Como aquele vulto presente sempre
Como um rápido vislumbre
A passar nos cantos dos olhos minguados

E uma vez o sol também pesando nas asas já invertidas
Deixando a eternidade encerrar mais um coração remendado
Obriga os reflexos dos vidros a devolverem as recordações inventadas

Repartindo um subconsciente suspiroso 
Enbebedando a alma com doce veneno
Num tenro assoalho lamentoso 

Enquanto os monótonos sons das memórias vividas
São levemente borrados, reorganizados e comprimidos
De modo a dar abrigo àquelas imaginárias idas

Das asas invertidas, que renascem apenas
Para ter suas puras asas invertidas novamente
Num mergulho sem fim, ao desencanto, às centenas.

By: Bruno

terça-feira, 3 de julho de 2012

Carma



Quando a cerejeira vai desabrochar?
Quando a vila da montanha se abrir.

Quando a cerejeira estará pronta?
Quando a sorridente menina de sete anos brincar.

Quando a cerejeira irá dançar?
Quando a cantante menina de sete anos dormir.

Quando a cerejeira irá apodrecer?
Quando a menina de sete anos voltar da morte.

...

By: Bruno

segunda-feira, 2 de julho de 2012

O desabrochar da flor, o desembainhar do destino.

Capítulo 2 - Melodias sob o vento de outono.


A grama seca carrega desistente
Os sons dos passos
Amassando-a de forma penitente.
--
O mar se estica para aqueles que navegam
Para as longas asas
Ele apenas as olha e as renegam.
--

Cantava meio em transe, em face da multidão que curiosa se aglutinava em torno daquela inocente boca, naquele fim de tarde, das quais saíam frases tão maduras e talvez mal interpretadas por quem abandonasse o local desdenhando os acordes falhados. Não era o momento e não estava preparada ainda para cantar sua dor, sua dor poderia derrubá-la a qualquer minuto e lugar, por qualquer súbita coisa que se assemelhasse aos momentos de desespero que passou. Os ventos de nada atrapalhavam o cair das moedas modestas na caixa de sua biwa, as pessoas talvez precisassem mais do que imaginam de uma pausa para distrair a mente com cultura de rua. Para a pequena, isso significava uma estadia numa pousada e talvez até um ou dois vegetais acompanhando a tigela merecida de arroz que podia pagar. Dos muitos rostos que via passar, nenhum ainda chamava a devida atenção, então a cada fechar de olhos, um alívio para sua introspecção, que não podia dar ao luxo de soltar-se por um segundo sequer. Devia continuar o show. Do contrário as pessoas iriam embora e então ficaria sem jantar.
Ninguém o vê
Mas seu som por todo o bosque ecoa
É em sua silhueta que o povo crê
--
Fazendo despencar
O fruto maduro desejado
Que as árvores refutam-se em dar.

A última canção da noite lançava nas mentes um ar misterioso, mas ninguém se ocupava de adivinhar que youkai poderia ser. Acredito eu, agora com um pequeno livreto em mãos, que mesmo naqueles tempos, gente da cidade não acreditasse mais em criaturas místicas. Será que tais criaturas importam-se com tal duvidosa credibilidade?

By: Bruno. 

domingo, 17 de junho de 2012

Prisma



Cores, ó cores, dos sons, do sol, das águas cristalinas
Definíveis apenas subjetivamente, nada além disso!
Flores da consciência, pensamento sem compromisso
Natureza em efluvecência, um manifesto sem disciplina

O céu parece transbordar um laranja desagradável
Meio que alegre e triste, irradiando sua instabilidade
Fazendo-se o réquiem desta desastrosa debilidade
Despertando-me a vontade de mergulhar neste sol amável

E quanto ao mar? Espelho errante dos azuis de todos 
Os olhos que amei, arrematando os doentios
Soluços que escorrem pesadamente nos rios
Que percorrem minha vida, ah, que sinuosos estes escombros!

Verdes são os perfumes da natureza
Poderosos cântigos venenosos
Fecundando os mistérios mais cobiçosos
E também os grandes sonhos sem sutileza!

E mesmo sob o quimérico concreto 
Tudo pulsa, tudo é vida, até no aslfalto
Ouvi de uma florzinha que tenta e fala alto
E mesmo não ouvida, continua com seu ímpeto

De fazer-se prevalescer diante das luzes vermelhas
Do trânsito estagnado, absorto em si mesmo
Enquanto ela vai consignando-se sem esmo
Em fotossíntese constante, já toda ramificada

Constelando palpitações graciosas 
Que colorem os olhos dos passantes
Em tão ínfimos instantes
Fazendo-os reparar por segundos preciosos

Na vida que perdem, que todos perdemos
Cambaleando sem motivo maior
Enquanto as cores retomam suas vidas sem furor
Apenas quietamente, sem que soubéssemos

Enquanto as dormências e finitudes agem contra nós
Nos abrindo chagas e anacronismos
Porém nos permitindo o silêncio do fatalismo
Porque quando percebemos, a tragédia é tão imponderável;
Tanto, que nem temos voz!

By: Bruno

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Quando apenas penso no mundo.



O mundo de hoje é brilhante! Mas é demais para os meus olhos.
Então os fecho, quietamente procurando por uma memória
Que não me é mais permitida recordar, sim, poderia esta ária
Ter sido minha única luz, perdida para sempre entre os molhos

De chaves que poderiam abrir urnas das quais nunca imaginaria,
Que poderiam resguardar minhas singelas lembranças de inocência
E até mesmo minha cotidiana incoerência
Das lâminas em forma de delicadas pétalas que o destino, empregaria

Uso contra qualquer existência que simplesmente relutasse
Iluminando seu coração com qualquer ebriedade ao alcance
Como uma árvore após o inverno, refolheando suas nuances
Mesmo com um coração estilhaçado, como se o mundo congelasse!

O exemplo perfeito são as flores, que mesmo caindo
Se mantem perfeitas, despetalando sua eternidade diminuta
Aos poucos, bem aos poucos, como se aproveitassem o tempo fluindo
E assim espalhando uma pureza fantasiada de fatalidade enxuta.

By: Bruno

domingo, 10 de junho de 2012

Incoerência.


Uma boneca quebrada olha inconformada
A platéia de sombras aplaude exaltada
Uma comoção irracional toma conta 
As notas cantadas formam uma música sem ponta

É exibida uma cena de jantar onde as pessoas
Em meu olho direito falam "Incroyable!" sem parar
Já em meu olho esquerdo uma pantomima está a começar
Mas em meu cérebro ecoa um lago com muitas canoas

De repente uns burgueses percorrem minha mente
Planejando uma revolução, mas a ideia logo se dissolve
Um cabaré os atrai para ver as pequenas damas que mentem
Suas idades, sem um preço fixo, são pagas e tudo se resolve!

E quem se importa quando os meus olhos giram?
Quem é aquela pessoa chorando mesmo?
Ca va bien comme ça? Oui, comme ça.
É incrível, uma tragédia nunca é a esmo,
Mas todos no fim, se encantam quando as explosões brilham!

O rolar casual dos acidentes realmente entorpecem
O outrora vira um qualquer memorando sem decoro
O trivial cigarro, o desimportante riscar do fósforo
Podem, na mão dos que diáriamente endoidecem...

Ca c'est l'histoire.

By: Bruno

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O desabrochar da flor, o desembainhar do destino.

Capítulo 1 - Início da fatalidade.


  É neve. Eu imagino neve neste conto japonês narrado embaixo da cerejeira. Perdoe-me o atrevimento, ó espírito que se indaga sobre a veracidade da minha ambição.  Em uma época cheia de youkais, antes dos trens e antes de qualquer sentimento de revolução, na pequena casa à mercê dos cupins e dos percevejos sem educação, uma menina cravava uma espada muito mais pesada que ela no chão.  E eu aqui, embaixo da cerejeira imaginada, me pergunto o seu tão escondido por que. E olhando para as manchas de sangue da espada, que acompanhavam as manchas de seu quimono bege claro, pode-se ouvir muito bem o bater das lâminas em um combate vicioso. Podem-se ouvir também os ventos de desespero de um coração temeroso pela própria vida, mas ainda com toda disposição para realizar a vingança.
   Suas lágrimas como pedras caíam conforme suas mãos forçavam a terra engolir sua lâmina, eram muitas memórias terríveis para um coração tão pequeno e inexperiente. Era também sofrimento em demasia para uma alma tão jovem e tão morta.
   Decidida e de rosto limpo das lágrimas, deixa aquela casa e aquela espada com um fato tão monstruoso para trás, excomungada pelo sangue derramado, solta num mundo cujas engrenagens se lubrificam com o suor dos camponeses e dos samurais. E em meio a neve, vagando ainda sem rumo por ruas que acumularam sua infância pura, depara-se com um trovador tradicional, cantando uma ode tão, tão familiar, que seu coração se comprimiu em seu peito como a chama de uma vela se comprime quando seu oxigênio se extingue. Desesperada, corre para que suas lágrimas não caiam ao som daquele grito fastio.
  Quando finalmente longe daquela cidade, daquelas pessoas, daquele canto e principalmente daquelas memórias, as copas das árvores lhe jogavam uma honesta sombra. O tronco de um paciente pinheiro resguardava ali, um lugar para se sentar e pensar. Foi o que nossa pequena amaldiçoada fez, sentou-se e aos goles de sua pouca reserva de água, pôs se a pensar. O que faria agora, sem destino certo, sem dinheiro em mãos, apenas com uma pouca variedade de coisas que carregava em sua trouxa? Para constituir o pequeno punhado de sorte que os deuses esmolavam àqueles que se vingam com espadas samurais, ela trazia consigo uma biwa sem verniz e sem qualquer decoração específica, apenas uma mancha pequena na lateral. Se sabia tocar, descobriremos quando ela se atrever a exibir as coisas aprendidas com sua avó, uma possível mestra nas artes líricas tradicionais. Mas eu me pergunto aqui, com meu copo de cerveja européia em torno dos ventos que carregam as pétalas, o que ela cantaria?
  Que coisas retrataria em suas letras improvisadas? Sabemos que não se podem dissociar os que cantam essas coisas de suas produções, já que é no improviso do pulsar do sangue que são compostas tais melodias. Enfim, as tímidas folhas do pinheiro são forçadas a acompanhar seus primeiros ensaios, testemunhas do aquecimento daquela jovem e rouca voz que tentava, apenas tentava encaixar seus primeiros tons musicais. O que será que movia suas melodias?

O que acharam? Comentem pessoal! 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

As lágrimas de Gaia



Sou feliz por minha carne ainda não ter decomposto antes que meu espírito
Corroído e cansado, raivoso mas inofensivo, esticado porém mantido clássico
Temo por um controle cada vez mais absorto da realidade, tão hemorrágico,
Tão inconstante, quanto a deserção do meu amargor manuscrito

Sempre copulando insaciável com uma garrafa de vinho, enaltecendo
Bruscamente os lampejos eclípticos que ondulam inconsistentes, 
As invocações desesperançosas dos estrelados e inconscientes
Caminhos proibidos, que atraem com a gentileza de suas mãos, tecendo

Insinuações secretas, guardadas apenas pelo meu olhar curioso
O pasto seco de outono é testemunha talvez do vazio dos meus passos
E embora os substantivos me proporcionem uma capa, é insidioso
Meu pensamento que me arremessa a umas esperanças lassas

E quando as lágrimas de uma Gaia atordoada caírem manchando minhas visões
Conversarei com essas imagens borradas, caso a cegueira delas não ilumine meus versos
De modo a não atravessar o laço do tempo apenas com um cálice sem verdes razões

É estranho ler nas gotas que enegrecem ainda mais o cimento
A alquimia do conteúdo dos cálices que abrigam mil janelas embaçadas
Sem acreditar um pouco mais em meu perdido lamento!

By: Bruno

sábado, 2 de junho de 2012

Haikais sob a concepção dos taninos.

Três endívias, apenas uma lebre
Uma taça de vinho, duas metades, música
O lanche, os taninos, podem causar uma febre?

***

Não tem borboletas, só lábios
Não tem click, não tem som
Quando velhos, nos tornaremos sábios?

***

A substância da linguiça cortada
Fragmentação, aceboleamento arroxeado
Elogio à música boa que foi aumentada!

***

Civilização manchada
Pureza? Um riso de criança
Pode explicar a ironia anatematizada!

By: Bruno

sábado, 26 de maio de 2012

A ironia


Desce do céu uma luz em solene despedida
Quem desce daquele céu opaco?
Que míope luz corrompe tais córneas sonolentas?
A face ardente dos sóis  aéreos põe-se a perquerir!

Quem cuja estrela anatematizou o enigma do bem e do mal?
Quem cuja onipotência perdeu a validade e tornou-se nada?
Aquele que ensinou o Don Juanismo conheceu por si próprio
As raízes infames da árvore da ciência e do que tal vegetal se nutre

São negros os olhos, tal como o outono do pensamento
Tão languentes os lábios quanto são sensuais os versos do Bocage
E por fim: intelecto tão desconhecido quanto o panteísmo eslavo!

Nos obrigando a versar sob o tempo impiedoso o conceito de vida
Concluimos que singular é a morte que só surgue quietamente uma vez!

E quem desce do céu em solene despedida?
A eternidade, dia após dia, aborrecida pela ironia!

By: Bruno

quinta-feira, 24 de maio de 2012

sábado, 19 de maio de 2012

Balada Múltipla


Nas imagens corridas
Nas palavras partidas
Na fumaça que nos lacrimeja
E até nos vitrais de igreja
Está talvez a paz, para quem a deseja

Arrancando do olho um cisco
Na contracapa de um disco
Nas vozes dos corais
E nas notícias dos jornais
Estão as recordações sazonais

Nos casais impregnados
- De amor
Nos olhares fustigados
- Do desolador
Desamparo ou da má sorte

Há este silêncio de além
A volúpia das lassidões;
O pousar da mão 
Do torpor da redenção

Nos vultos que revivem o passado
Nas orações que evocam a tradição
Mesmo nos rituais que repelem a maldição
Estão os espasmos de esperança fustigados

As lágrimas dos cansados
Os olhares sem vida dos caídos
O azul do grande sonho indeferido
Fazem dos poucos escolhidos, alucinados

E eu... Nunca vi as nuvens sorrirem
Através de um arco íris luminoso
Por entre os ventos ásperos e impiedosos
Eu... Nunca vi as esperas se serzirem...

By: Bruno