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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Noite Metonímica

As noites sempre rolam em meus olhos
Pois, como as gaivotas deslizando acima do mar
Como as árvores sem voz pairando suas folhas ao clarear
Sigo tentando não derrubar as escuridões que acolho

Estou cheio de modernas velharias
Passarinhando por desejos e desprezos
Vultos, trapos e desbotadas calmarias
Contorcendo minh'alma com seus vários pesos

Estraçalhem estes meus restos de sentimento
Até meus ossos desparafusarem, cansado
Até este luar particular desaparecer, tomado
Queria não precisar sonhar, por um pequeno momento

Ah a modernidade nos trouxe ventos artificiais
Os acho tão saudáveis e meningocócicos
Mas não tão melhores que os depressivos ilógicos
Os bons que percorreram os luares abissais

Por vezes tornando mais um em caído
Intoxicando e rompendo em complexidades
Embora permanecendo em seu álamo adormecido.

By: Bruno

Biografia de Charles Baudelaire

Poeta francês. Famoso por suas Flores do mal, influenciou toda a poesia simbolista mundial e lançou as bases da poesia moderna.

Baudelaire marcou com sua presença as últimas décadas do século XIX, influenciando a poesia internacional de tendência simbolista. De sua maneira de ser originaram-se na França os poetas "malditos". De sua obra derivaram os procedimentos anticonvencionais de Rimbaud e Lautréamont, a musicalidade de Verlaine, o intelectualismo de Mallarmé, a ironia coloquial de Corbière e Laforgue.

Poeta e crítico francês, Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris em 9 de abril de 1821. Desavenças com o padrasto forçaram-no a interromper seus estudos, iniciados em Lyon, para uma viagem à Índia, que interrompeu nas ilhas Maurício. Ao regressar, dissipou seus bens nos meios boêmios de Paris, onde conheceu a atriz Jeanne Duval, uma de suas musas. Outras seriam, depois, Mme. Sabatier e a atriz Marie Daubrun. Endividado, foi submetido a conselho judiciário pela família, que nomeou um tutor para controlar seus gastos. Baudelaire permaneceu sempre em conflito com esse tutor, Ancelle.

Acontecimento capital na vida do poeta é o processo a que foi submetido em 1857, ao publicar Les Fleurs du mal (As flores do mal). Além de condená-lo a uma multa por ultraje à moral e aos bons costumes, a justiça obrigou-o a retirar do volume seis poemas. Só a partir de 1911 apareceram edições completas da obra.

Mal compreendida por seus contemporâneos, apesar de elogiada por Victor Hugo, Teóphile Gautier, Gustave Flaubert e Théodore de Banville, a poesia de Baudelaire está marcada pela contradição. Revela, de um lado, o herdeiro do romantismo negro de Edgar Allan Poe e Gérard de Nerval, e de outro o poeta crítico que se opôs aos excessos sentimentais e retóricos do romantismo francês.

Uma nova estratégia da linguagem - Quase toda a crítica moderna concorda que Baudelaire inventou uma nova estratégia da linguagem. Erich Auerbach observou que sua poesia foi a primeira a incorporar a matéria da realidade grotesca à linguagem sublimada do romantismo. Nesse sentido Baudelaire criou a poesia moderna, concedendo a toda realidade o direito de ser submetida ao tratamento poético.

A atividade de Baudelaire se dividiu entre a poesia, a crítica literária e de arte e a tradução. Seu maior título são Les Fleurs du mal, cujos poemas mais antigos datam de 1841. Além da celeuma judicial, o livro despertou hostilidades na imprensa e foi julgado por muitos como um subproduto degenerado do romantismo.

Tanto Les Fleurs du mal como os Petits poèmes en prose (1868; Pequenos poemas em prosa), depois intitulados Le Spleen de Paris (1869) e publicados em revistas desde 1861, introduziram elementos novos na linguagem poética, fundindo o grotesco ao sublime e explorando as secretas analogias do universo. Para fixar a nova forma do poema em prosa, Baudelaire usou como modelo uma obra de Aloïsius Bertrand, Gaspard de la nuit (1842; Gaspar da noite), se bem tenha ampliado em muito suas possibilidades.

Crítica de arte e traduções - Baudelaire destacou-se desde cedo como crítico de arte. O Salon de 1845 (Salão de 1845) e o Salon de 1846 (Salão de 1846) datam do início de sua carreira. Seus escritos posteriores foram reunidos em dois volumes póstumos, com os títulos de L'Art romantique (1868; A arte romântica) e Curiosités esthétiques (1868; Curiosidades estéticas). Revelam a preocupação de Baudelaire de procurar uma razão determinante para a obra de arte e fundamentam assim um ideário estético coerente, embora fragmentário, e aberto às novas concepções.

Extensão da atividade crítica e criadora de Baudelaire foram suas traduções de Edgar Allan Poe. Dos ensaios críticos de Poe, sobretudo "The Poetic Principle" (1876; "O princípio poético"), Baudelaire tirou as diretrizes básicas de sua poética, voltada contra os excessos retóricos: a exclusão da poesia dos elementos de cunho narrativo; e a relação entre a intensidade e a brevidade das composições.

Ainda um outro Baudelaire é o revelado em suas obras especulativas e confessionais. É o caso de Les Paradis artificiels, opium et haschisch (1860; Os paraísos artificiais, ópio e haxixe), especulações sobre as plantas alucinógenas, parcialmente inspiradas nas Confessions of an English Opium-Eater (1822; Confissões de um comedor de ópio) de Thomas De Quincey; e de Journaux intimes (1909; Diários íntimos) -- que contém "Fusées" (notas escritas por volta de 1851) e "Mon coeur mis a nu" ("Meu coração desnudo") --, cuja primeira edição completa foi publicada em 1909. Tais escritos são o testamento espiritual do poeta, confissões íntimas e reflexões sobre assuntos diversos.

Quer pelo interesse inerente a sua grande poesia, quer pelos vislumbres que essas confissões propiciam, Baudelaire se destaca entre os poetas franceses mais estudados por ensaístas e críticos. Jean-Paul Sartre situou-o como protótipo de uma escolha existencial que teria repercussões no século XX, enquanto a crítica centrada nas relações históricas, como a de Walter Benjamin, dedicou-se a examinar sua consciência secreta de uma relação impossível com o mundo social.

Após uma existência das mais atribuladas, Baudelaire morreu de paralisia geral em Paris em 31 de agosto de 1867, quando mal começava a ser reconhecida sua influência duradoura sobre a evolução da poesia.

Fonte:
http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/charles-baudelaire/charles-baudelaire.php

Esta é a primeira parte do "Projeto Baudelaire" que prometi a algum tempo aqui no blog. Eis que ele é uma das minhas maiores inspirações. A seguir postarei sua bibliografia completa. Espero que gostem e comentem, se já leram algo dele, se estão curiosos para descobrí-lo, etc.

Abraço poético e boas festas =]

By: Bruno

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Neste túmulo invertido


Lindas flores aparecerão em meus olhos
E conforme elas desaparecem, tudo se torna escuridão
Reclamadas por algum viajante que procura sua libertação
A ausência de som provoca uns desesperos que recolho

A visão remolda-se em uma porta pesada
Parecendo esconder um segredo jamais contado
Flutuando em uma memória no vazio inabitado
De repente alguma respiração é percebida

Há alguém dormindo aqui
Posso até ver um pedaço do tecido de loucura
Que o reveste neste sono que me sorri
Revelando uma mortalha de clausura

Sua agonia é refletida em todo o miasma
Que a desenvoltura da porta não deixa escapar
Terror e medo há muito no meu neuroplasma
Jamais deixarão de me atormentar

Em meu eterno mundo, onde lágrimas estremecem
Esquecidas e secas ao vento gélido e cruel
Aperto meu rosto contra a parede, eis a fiel
Confirmação dos meus abismos que enegrecem

A cada passo em que eu devoro meu âmago
Desregulando o fluxo da dimensão
Que me conquistará e desfalecerá comigo, pesadamente...

By: Bruno

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O Verdugo da Borboleta



Dorme, Dorme Princesa Borboleta
Sonha lânguida com novas dimensões
Sem te importar em ganhar uma mancha violeta
Comprovando as lassas diversões

Nem imaginas o infortúnio no qual foi meter-se
Jamais despertes senão baterás às portas do arrependimento
Ou tuas magníficas asas porão o gato a entreter-se

Conta-me tuas rapsódias bucólicas
Que então te contarei as mentiras da civilização
Sabe, compartilho de tua natureza merencória

As mesmas visões dementes da liberdade e do céu
Postularam um rasgo na tua asa
E agora te prendem sob um teto baço de uma casa
No esperar do fim que pode abraçar-te como um véu

Se tentares voar em qualquer dos minutos
Distante de janelas, próxima de vultos
Em silêncio fervilharás consagrada
Sob os olhos do céu arregalado.

By: Bruno

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Repartição

Suspiros escorrem pelos azuis das corolas
Cortando o chiado das vitrolas
Que entoam sem lamento ou dissabor
A fantasia germinando em estupor

Fitando o céu azul com alvíssimas nuvens
Que deixam nevar em minhas mãos
O sonho incompatível dos sãos
Acompanhando os odores da tristeza que surgem

De modo menor canta a inconvecida harmonia
Do desfolhar das árvores em alegria
Descompassando os alísios do oceano
Inda ignorado pelo encantamento soberano

O beijo então dos ventos despetaleiam
Brutalmente os azuizinhos azarados
Que ao ombro da grama pranteiam

Então sombreando o infinito tremendo
O Salgueiro ouve este brando rumor
De mais um de muitos peitos rompendo.

By: Bruno

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Nestes teus anos que se completam

Eu sei que os inúmeros parabéns e festividades

Soarão como manequins desprezíveis e noctâmbulos

E que a vida lhe traz sinistro horror, como os sonâmbulos

Quem sabe eu neste estilo maldito não te trouxesse alguma irrealidade?


Assim quero que tua viva caveira

Levante a fronte zombeteira

À moral deturpada da cristandade

Tal não pertencida moralidade


Mesmo que sejas poço de culpa e defeito

As grades insaciáveis de teu peito

Devem viver toda prosa e poética

De todas as vidas heréticas


Daqueles que dançam horrivelmente

Nutridos pela espiral livre

E aqueles inspirados por Le bateau ivre

Pois alcanças a maioridade magistralmente


E sua ironia junto com sua insânia

São sim percebidas e admiradas

Portanto desejo que jamais sejam abdicadas

Quanto mais neste dia que julgarás cheio de litânias.


Dedicado à: Maykel M. de Paiva


By: Bruno

Memórias...

Caminhando pelas primaveras do meu pensamento
Tenho a audácia de lançar tintas e cores sobre uma folha em branco
Debaixo de monótono céu confundo a pesada memória
Com os síncronos rumores do tempo de criança
Me aprazia o olhar também, diversa lembrança da viagem
Onde morriam e renasciam todas as cores
Juntamente com o bafejo aromático da formosa saudade
Contradizendo-me

Pois que ficamos eu e o Gato a fitar os minutos após a meia noite
Transmitindo-nos um sono ao qual não me permito
Diferente do raio cintilante do fogo, do qual me encho toda vez
Da euforia mais rebelde, que desta vez ele não se permite contagiar
Posso dizer que minha alma não sofre
Condizendo-me

Lembra, Gato, de quando eu tentei tocar piano?
Meu nervosismo foi tão insolente
Lembra, Gato, do passarinho que vimos naquela tarde?
O som do piano também nos tinha invadido os ouvidos
Durante nossas conversas jamais arrebatadas
E então vimos na morte o clarão que cessa
Os sons que findam trazendo o alívio deserto
Interrompendo-me

Revi atestando os lugares visitados
Escadas, paredes, pessoas familiares
Efêmeros traços sem arrependimentos
Dentre os vagos despertares que velam
Este passado incerto, embora puro
Com todos os sentidos que a ebriedade pode apurar-me
Embrigando-me.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

As pessoas procuram nas outras características que as valorizem sem nunca prestar
atenção ao individualismo, tendenciando o amor a tornar-se insalubre e vão aos olhos da volúpia moderna.

By: Borin
A arte é, pois, estupro. Por irromper na alma ampla gama de sentidos a serem desvendados. Comparada ao crime em que as intenções, cúmplices e veredictos são incógnitas, percebe-se serem desencadeadas pelo pensamento que é repuxado pelo simples havistamento inocente que incentiva a pesquisa fundamentada.

By: Borin

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O escuro

O desconhecido ramifica-se sobre a luz
Com seus grandes olhos vermelhos à osfuscar
Sem defesas a luz fraquejante a repudiar
Os nossos espíritos medrosos a adentrar

O que não se pode ver se torna o que se ouvirá constante
As criaturas farejantes sentirão cada peçado de horror
Do alegre arrastar do humano vagante
Desejando a ideal fantasia da inocência que se mistura ao clamor

A citar as *Lâmias sedutoras tão doces
Incentivando o embarque neste trem vedado
Toca a ocarina a cobrir com sons, o corpo acalentado
Feito asas negras numa insuspeitada corrupção, precoce

E de nada valerá a esperança, o arrependimento, tão sagazes
Aparentemente, mas transformam-se
Em desesperos bastante eficazes

Assim tais aluadas criaturas
Postulam-se em desesperadores e desesperados
Abalando até mesmo das divindades as ossaturas

Porém quando enclarece, pois existir não se resume ao escuro
Até os perdões se tornam tédios envernizados
Reunificando a ordem do impuro!

*Lâmia: um tipo de monstro, espírito feminino que atacava viajantes e lhes sugava o sangue.

By: Bruno

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Viver

É uma dor simples, nada misteriosa
Para ninguém transparece
Some em mim de forma tão curiosa
Envolvida numa calmaria que emudece

Emudece ignorantemente esta alma aturdida
O riso infantil disfarça muito mais que o pavor à vida
À dormir sempre aos cílios do infinito

Deixar o coração embriagar-se de irrealidades
Se já está instalada sua vindina
Na morada das ilusórias e tenras materialidades

Que dirá esta noite, em sua doce desautoridade
Devorando aos pedaços a carne espiritual
O alado dos abismos mais profundos a nos cobrir de escuridade?

Esta harmonia que vaga na treva é tão precisa
Não há porquê esconder, nesta procissão eterna
Os meus sentidos resumem: a nossa visão não analisa
Portanto não vê a pútrida beleza que governa

A existência a afundar nos ouvidos desapercebida
Por uma lei das potências supremas.
Provocando um transe místico descomedido.

By: Bruno.

Toque

Na clareira ao pé do lago
Emerge a figura sonhada
Em meio à outras luzes
Ofuscadas por não existir

Na sombra surge a nostalgia
Que dorme e se faz presente
Que castigo irreal sentimos?
Por nos iludir por algo que não revelamos

Tanto é feito por entre a luz e a sombra
O nada é conquistado pelo subterrâneo
A assombrar a estagnação das mágoas
Como uma mão a afagar a coluna arrepiada

Jamais restituirá o olhar conquistado
Expressivo à nossa concepção
Porém em descrença por parte agitada
Da pessoa que passa, pensando em si

Meu pálido sorriso contém alguma angústia
Que talvez manche as pontas dos seus dedos
Seus joviais dedos que eu protegeria se capaz
Se eu pudesse esconder minha hesitação

Ou o final horrível que o toque da mão jovial
Pode me proporcionar caso aconteça despreparadamente
Porque eu não conheço a espiral de tempo que eu temo

Por falar em mãos, as minhas trementes
Remetem a algo que eu embora conheça
Não posso controlar, você não pode entender isto
A impossibilidade congela-se então abandonada

O descompasso do meu coração
Nunca vai adornar a quietação
Deste mundo solitário e informe

E eu nem sei dormir, com as esperanças vazias
A mágoa ancestral me domina inconsciente
Em incertos dias em que o tempo não procede

Nem a complexidade procede
Querendo viver eternamente
Sob a vastidão do meu cansaço
A postergar o fim que almejo

Toda vez que cansado e ansioso
Com sede ou fome
Arrepio ou mágoa
Colho a desistência em versos.

By: Bruno

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A Sucessão de Lázaro

Os fígados doentes contemplam
Como um fantasma que pertence a uma casa
Junto à natureza morta convulcionam

A angústia em pseudônimos tumulares
Contrastando este ar alienado, eu penso
Como poucos, de fígado morto me resta o senso

Numa sucessão inconstante de segundos
Soluços imprecisos revigoram-se profundos
Nos traumas que mantém as almas rudimentares

E mais profundamente, nos fatos sociais
Durkheim não previu que o spleen
Soltasse o berro fúnebre, como os chacais

Anunciadores dos festins carniceiros
Sob um raciocínio então, muito obscuro
Nos alumia na hora da morte, em qualquer breve futuro

A natureza irrompendo em algazarra
O aglomerado de vida e morte do cosmos
Sinfonia tão abrasante e bizarra

Minha hemoglobina ébria e aquosa
Mantém o micropoder da minh'alma
Saciada mas ainda por vezes chorosa

O tilitar dos ossos em seus cadáveres
Incorresponde ao odor desaparecido
De suas carnes e de seus caráteres

Nesta hora em que talvez fossem lembrados
Por uma ou outra benesse
Que em vida lhe foram negados

Contudo meus olhos sempre distinguiram
A putrecível diferença entre nós e os animais
Eles, simplórios, mas que suas almas sempre progrediram

Surpreendo-me que os bilhões de corpos vivos
Somente existem da contração dos gritos
Dos oprimíveis e dos repudiáveis sofrimentos abortivos!
Nós.

By: Bruno

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Faisão

Trancedendo-me até as cores impostas a mim
Murcharem aquosas no eucalipto em brasa
Lembro-me da infantil memória do cativeiro sem fim
Até a chuva me confortava deixando minha visão baça

O balbuciar infame dos humanos me soava ameaçador
Nem imagino o quanto custou quando desci nas gargantas
Acompanhado de algo roxo que estava nas garrafas em ardor
Em inclemente celebração, insaciada ceia santa!

E escuto em espírito, se é que tenho
Os refrões dominicais, a Graça!
Embora só trazem desesperanças, me abstenho
Serão mais contentes após a glorificação que me arregaça

Com um garfo após o outro, os olhos esfregando
As almas eram pedras indiferentes e esfomeando
Vertiam até os ossos em suas áureas vontades
Garrafas tombavam várias, fora de minhas acuidades

Sempre hei de recordar com suspiros o bosque amado
Os pequenos arboredos e do coaxar do lago próximo
Lembrança ilusória de atrás de um vidro, sob um céu abarracado

Abrindo largamente sua falsa tranquilidade
Escondia bem o inverno austero
Quando naquele sol da tarde, alvo do costume da cidade...

By: Bruno

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O Sonho Embriagado


Tingindo num instante os ritmos lentos no clarão dos dias
Galhos secos compõem toda a pontuação e as vírgulas
Enquanto tento montar perfeitamente com asinhas de muitas libélulas
Junto a um bom cálice a escorrer na garganta velhas rebeldias

E com a folhagem seca teço um estojo verde de ouro manchado
Debaixo de esplêndidas flores onde o amor dorme
Onde essa pequena busca finda e se recolhe
Reconheço que estas luzes são um bom bordado

A acrescentar aos murmúrios surdos que despertam
Como pensamentos desgarrados pelo violino
Ao som do álcool mergulhado no verso paladino
Estalando aos céus cujos soluços as florestas adoçam

O horizonte corrompido por luzes elétricas
Adormecem os hipocampos que imóveis adornam-se
Delirantes vogais do subconsciente com tendências assimétricas

Até que o amargor do sol extermina a torpeza embriagante
Com que o amigo atroz da lua, Hipnos, tratou de perfumar o sono
Reconheço as manchas de vinho verde no alambrado que percorro
Levando o orgulho dos horrores místicos na melodia do verso entoteante

Ao infame sonho de portas pretas que guardam as velharias
Dos muros com florações leprosas por quais ao ranger
Coloco minhas mãos langorosamente, em busca das calmarias
Da gentil aspereza e dos pequenos astros mesclados a colher

Assim como a carne das mordiscadas maçãs
Deles sem lamentar; a liquidez do tempo
Que se esvai banalmente por incuriosidades vãs

Então vê que as trevas são elas próprias as telas
Onde são pintados os destinos mais desastrosos
Com sons indistintos a ecoar pelas capelas.


*Hipnos: Deus grego do sono.
By: Bruno

domingo, 27 de novembro de 2011

Dir-se-ia

Dir-se-ia os minutos que passam depressa
Refletindo a palidez do passado que se esquece
Imitando por muita vez a formosura do sonho que regressa
Subtraído do ID que sempre desobedece

Dir-se-ia os olhares que se cruzam
Para nunca acontecer novamente
Sutil movimento enquantos corações passeiam
Que o acaso os mostra nobremente

Dir-se-ia o mal que nos torce
À caminho de casa mas não é percebido
Rápidamente se apoderam do espírito dormido
Muita vez por satisfação torpe

Dir-se-ia pluviosê a afogar as terras
Aguando as ramagens secas
Afastando as arribações cerranas
Arranhando as rudes janelas mundanas

Dir-se-ia os desejos não cumpridos
Ao pé da cova semeando ruindade
Afagando a moral rompida
Sobrepondo-se a maldade

Dir-se-ia com tristonha voz
De fantasma friorento
O calor da vida em apodrecimento
Consumida por uma saudade atroz

Do tempo menino
Ou do amor perdido.

By: Bruno

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Noctuae

No dorso de seda da tenra noite
Ao olhar curioso da lua
O sonho que a inconsciência pactua
Me afaga com penas leves sempre após a meia-noite

A estrelar nas místicas pupilas ao dia
Febril meditação que as resguarda na escuridão
Aguardando imóveis o tempo de solidão
Onde estes amigos das trevas não sentem sua agonia

E quando esta chega espalhando assombros
Quando todo bom cristão seus olhos cerra
Sonolentos por esta vida de escombros
Ouvirão por vezes, os sonhos que ela enterra

Na hora que das límpidas estrelas
Vazam o sangue condenado dos que caem
Desfrutam os conhecimentos que absorvem
Da Árvore da Ciência, todas as universais grandezas

Assim mergulhando no infinito espaço
Calcando o amplo céu com seu incerto passo

Almejando a luz de um sol escuro e terno
Desde a presença do homem antigo até o moderno.

By: Bruno

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Projeto Baudelaire

Estou aqui pensando... Dezembro um mês em que vou colher todas as poesias aqui, organizá-las num caderno especial e tudo mais...

E se eu fizesse um post extremamente elaborado contando um pouco mais sobre esse meu mestre maldito? Seria ótimo e eu poderia amplamente falar sobre As Flores do Mal... este buquê tão humano e tão horrendo que é a beleza, o spleen não só do poeta, mas também dos humanos em si?

Who would know who was Charles Baudelaire?

Comentem ^^

sábado, 19 de novembro de 2011

Le Grand Bleu



Encolho-me mais uma vez em minhas memórias
Aquele azul foi o meu sol por tantos anos
Que perco a conta de quantas ousadias
Me foi viver deste delírio ao som do piano

Percorri o longo caminho do devaneio
Incorrespondido porém completo
De toda alegria e olhares repleto
Mas o seu grande azul era o meu receio

Eu quis me entregar, estava no outono
Do pensamento, da vida, da inspiração
Guiado por aquela grande aurora de ilusão
Sempre sonhando a te encontrar após o grande sono

No entanto eu sabia que minha visão idealizada
Feneceria eficazmente, me transportando à realidade
E eu sabia que aquele amor seria todo breviedade
Morreria, certamente, sem nunca ser uma realidade realizada
Sem jamais passar de um grande devaneio dentro sem ebriedade.

By: Bruno

Urbanismo

O ávido turbante anil da cidade remoe em nossas cabeças o fosfóreo pensamento cosmopolita. As árvores envergonham-se enquanto isso, de serem meros organismos espalhados no concreto roído. Mas são realmente visões que conquistam os céus, verticalizando todas as novas ideias sob a égide capitalista.

A fumaça dos carros se dissipa sob o voo despretencioso dos passarinhos, enquanto a janela do trem se comporta como uma foto movente. Naquele caminho traçado, aquele confortável azul me escondia do ruído, do frio. E estranhamente logrei de São Paulo a ausência de anaforismos, pois o ar poluto é estritamente necessário, as chaminés, os cigarros, a pressa e talvez um coffe break...

Jamais muda, a cidade realmente devora nossa solidão, vorazmente, escarniosamente cacofônica. Verminosamente? Depende, por onde olho há possívelmente um lirismo deteriorado. Bom, ao poeta cabe as inspirações e a virtude o destinguirá seja no lajedo ou numa poça amarga.

Bom voltemos aos passarinhos que vi, uma vez que eles não se importam com páginas de livros, não se importam com a fumaça que os empesteia e nem com ideias de criação ou de destruição, apenas voam sem pontuação. Devíamos nos embriagar desta virtude!
E eu nem citei os gatos, que a tudo observam. Certamente nos julgam, sua atitude emproa magnificência, existir passa a ser sinônimo de elegância e dândismo. O que será que pensam?

Nota: Permitimo-nos certa vez um toque de modernidade, não? Pois também os malditos anteriores pregaram tal Maldição da modernidade, há na fala de Rimbaud a comprovação; "É preciso ser absolutamente moderno". Bom não creio tanto nisso, porém que mal há em nos embriagar de um leve toque de civilização enquanto nos deliciamos com boa virtude poética?

By: Bruno

A porta

Vagueando por um corredor
Encontro uma porta qualquer aberta
Apenas uma sala com luzes e cadeiras
Ainda sim a porta me foi tão convidativa
Sempre ali, a espera de alguém que entre
e fique lá com todas aquelas luzes.

O que será que ela já presenciou?
Ela se pergunta se um dia verá algum acontecimento extraordinário?
Será?
E quantos espíritos passaram por ela?
E para quantos ela se mostrou cruelmente trancada?
Será ela cansada de ser verde?

Será isto apenas um resíduo de um pensamento precário?

By: Bruno

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Regresso do delírio

Mesmo se eu não voltar a ver a face do meu delírio
Ainda estou distante do fim desta recordação
Enquanto pétalas de tinta embalam esta nova adoração
Na forma do veneno que faz das minhas veias um martírio

Eu deslizo meus dedos pelo ar estático
Procurando as esperanças que me arranham lentamente
Fazendo destes sonhos assintomáticos
O meu banquete congelado e indesfrutavelmente
Doce como os sonhos mais puros
Que o céu gentil nunca faz escuros

O mar orvalhou ruivo nas minhas memórias partidas
Enquanto o meu coração sangra negro a paz dos dias sonhados
A mente sobrecarrega-se e corpo decai devagar, cansado

Encantos jogados de relance
Ingênuamente e à qualquer luz impercebíveis
Embriagado percebo-me caminhando para um romance

Fantasias são plumas perfeitas, mas pesadas demais para carregar
Sob os perfumes de Jasmim ou de vinho
Eu silentemente me endemoninho
Com estes novos delírios à mente deturpar!

By: Bruno

domingo, 13 de novembro de 2011

Inanição


Nalguma parede de um hospital abandonado
Encontra-se um cansado crucifixo bruscamente
Por orações e por prantos incessantes atormentado
Olvidado ao desespero e corrupção simplesmente

Almas desgraçadas seu sudário roubaram
Em busca de uma gota de luz que temperaria
O sabá tão esperado e que nunca os reviveria
Porém eles nem sabem que morreram

Apenas continuando suas súplicas
Sua faminta obcessão como borboletas a flamejar
Sob o êxtase, o grito, o choro a ecoar
Naqueles corredores em ardentes soluços

As aves mortas cantam umas canções bastardas
Que os distrai e que ao pequeno crucifixo
É de alguma forma um pequeno capricho
Representando a alucinação das coisas há muito tempo ignoradas

Este abismo tão cheio de estórias e blasfêmias sem fim
Por entre estes muros onde não houve nunca a luz
São para o peito humano um ópio e um florim
O mais negro spleen rompendo da morte todos os tabus

Goya* aos pés da eternidade;
É tão invejado pela forma como alimentou
Saturno com suas crianças, com tanta dignidade!
Até que o último pavor suspiroso findou!

Goya: Pintor do quadro "Saturno devorando seu filho.
By: Bruno

domingo, 6 de novembro de 2011

Yume

Eu sinto minha inconstância se distanciando
Quando eu colho gentilmente minhas memórias
Tentando proteger um pensamento qualquer
Da escuridão que decora o meu peito.

A eternidade passa por mim é apenas um sonho
Uma pequena sombra em torno da lua
A eternidade que passa pelo mundo
É uma brisa incorreta
Uma faísca em torno do sol

Nem toda lembrança é variegada de dor
Fluindo pelo tempo como um jardim colorido
A espera de uma colheita ou de um gentil fim
Que as abrace solitáriamente

Num ato mais profundo que qualquer gentileza
As estrelas iluminam o tempo incerto
Em direção ao amanhecer que se esconde
Com uma quietude abandonada
Nos enlaçando ao destino que nunca para
Sem nunca passar de um sonho...

By: Bruno

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Além da Solidão


A sombra por trás do sorriso que eu mostro
É uma gentil descupa para evitar que
Mesmo Ocultando os fantasmas que carrego em desfalque
Liberem todos os segredos que eu devoro

Dentro dos confins da minha falsa esperança
Sinto cada vez mais frio através das minhas feridas
Afagadas somente por minhas próprias mãos estremecidas
Imaginando um mundo colorido como uma criança

Subindo uma escadaria imaginária e vazia
Portando apenas uma máscara cada vez mais translúcida
Enxergando com olhos sem brilho através de uma escuridão lúcida
Sou forçado a encarar com toda insegurança a vida mais fastia

Nas minhas alucinações, onde eu posso ser eu
As trevas se tornam sons únicos, até as cores se desfiguram
O céu se torna apenas uma mancha escura
Onde deveria ser estrelado se mostra um coliseu

Nas flamas que eu imagino serem perfeitas
Tudo desmorona se corrompendo, perdendo sua vida
Partindo para sempre frágilmente liquefeitas

Olhando por uma pequena fresta agora
As cinzas inocentes deixadas por aquela chama
Que perdeu lentamente seu calor na aurora
Enquanto eu me escondia em um anagrama

Cada dia é uma rachadura na minha pequena máscara
Feita por minhas lágrimas sanguinolentas
Servindo de alimento para estas flores agourentas
Pavimentando os esqueletos que jazem ao som da cítara

Vagando com uma razão silenciosa
Por entre a grama amassada, mas ainda verde
Carrego algo que não se encaixa, porém não se perde
Tento indelicadamente entender sua utilidade luminosa

Antes que imagens embassadas
Se tornem as obcessões dos meus medos
Adoentando minhas emoções já conturbadas
Distorcendo minha percepção deste grande arvoredo.

By: Bruno

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Mãe

Tal qual um menorzinho de idade
Tal qual remota miragem da infância,
Agarro o dedo de minha mãe
E raspo sua rústica unha na parte inversa da minha falangeta
A alguns passos adentramos no metrô
E fomos...

By: Bruno

domingo, 30 de outubro de 2011

Missa Negra


É impressão ou as chamas das velas
Fulguravam em ondas naquela sagrada decoração?
Enquanto orávamos fielmente à um sol de fogo e pena
Sob as palmas de um rebanho que acena

Cumprimentai-vos irmãos, com uma paz hipócrita
Tal como estrela aflita dos vícios que me acometem
Das virtudes débeis e perenes das vidas que florescem
Prodigalizando mais uma tarde nesta cripta!

O altar enegrece com o cair pungitivo
De sangue virginal e das penas que se soltam
Daqueles anjos que se revoltam
Caindo um por um com lágrimas furtivas

Gritando desesperançados
Morrendo infinitamente junto com a sanidade
Jamais livres do pecado da santidade
Corações a esmo arrancados

Afim de alimentar tamanha impureza
Volúpia fecunda a pestanejar como Hórus
Que vê além desta mancha de pus
Um sol esguio e cheio de esperteza

Que sóis vós a beira do negro abismo
De doença e de vozes
Humanas metamorfoses
Fictícias que anseiam um futurismo

Que sempre na morte
Encontra o seu vazio perplexo
Desespero respigado em reflexos
O punhal clama a falta de sorte

O diálogo sombrio rasteja
Aos ouvidos daqueles hipnotizados
Divino acaso sedento por rituais romanizados
Do rermorso covarde que nos apedreja
Nesta missa negra.

By: Bruno

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Dormência


Paralisadas às vestes sonolentas
As pálpebras lentas já vazias salientam
Os poentes arrebatadores
Que deitam sob a sombra e os desflores

As vidraças choram arranhadas
Sob uma voz de abandono
As pétalas são varridas num outono
Imaginado aos soluços e acanhado

Definitivamente é com louca cobiça
Que nos sonda com olhos hostis
Estas danações indecifráveis e vis
Como um rio com água bastante corrediça
Pavorosamente sem água

Não posso neste momento que definho
Me esconder nos olhos do vinho
De certo modo, como as pequenas coisas do caminho
Eu também não possuo algum escaninho

Mordo de leve as mãos
E intensifico a mordedura
Com o desenrolar das ataduras
Distraio, ou tento, os sãos

Posto que sempre há dores novas
É uma ocupação original
Experimentá-las e não levá-las a mal
Em seguida escrevê-las ao pé das covas

À compensar, esta dor inflexível
Não esvanesce, nos forçando a adaptar
Lembranças que já não podemos captar
Do mesmo modo incompassível
Dos tempos vivos.

By: Bruno

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Onde não há


A figura imóvel é só um vaso agora
Seu conteúdo vaga livre
Misturado à uma temperatura que amorna
A paz que neste após se entremarra

E esconde-se bem entre os mistérios
O que nos foi prometido como confortos
Um pequeno jazigo aos pés de aves absortas
Onde não há mais sorrisos, males e nem prelúdios

Não houve chuva que riscou
Vento que soprou
Silêncio que perdurou
Somente o lento estremecimento
Ao relento dos barulhos e conversas ficou

Nos lábios ressequidos e colados
Esvaneceram-se os barulhos que tanto gostava
Agora unido à natureza que tanto aclavama
Elis que cante animada naquele campo airado!

Nos pálidos dedos escorreram para longe
Os desesperos que os coravam
As agonias que desesperavam
Até a vida se esvaiu para longe

Para o sempre sem claridade
Para o nunca sem obscuridade
Para o cansaço descomedido
Para o descanso merecido.

By: Bruno

domingo, 23 de outubro de 2011

"There's no hand of preparing of the disordered hair".
- The Gazzete

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Noite

A noite contém emanações de profundas súplicas
O silencio nos toma com seu passo arrastado
A luz que deixa os olhos os torna tão descorados
Asas esquálidas desdobram-se de maneira héctica

As lágrimas vencidas denotam a vã luta
Que fazem meu pensamento percorrer o abismo
Todos os sentidos espiralizam sem conformismo
E acusam um ressentimento dissoluto

Paralisadas às vestes sonolentas
As palpebras lentas e já vazias salientam
Os poentes arrebatadores
Que deitam sobre as sombras e os desflores

Nós, somos o espólio que fica
Em tom insidioso nos afaga o desespero
Com doce voz, que sempre exaspera
As cinzas de uma fatalidade que como vento se espalha.

By: Bruno

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Après le noir

Minhas dores pingam no escuro descrevendo cicatrizes
Nas pequenas ondas que formam levemente
E desvanescem calma e ritmicamente
Dispersando as memórias já sem chamarizes

Ecoa mais uma vez indefinido
Percorrendo a escuridão caótica
Este sofrimento narcótico
A que sempre sou aduzido

E eu ingenuamente achava, então
Que guardado no fundo do coração
Estariam os sonhos que dormiram demais
E todos aqueles pensamentos a mais
Que sondam e perseguem
Exageram, entontecem e somem

Em onda este eco imenso invade
Com motivos torpes e inexatos
Abalando a razão antes tão exata
Não existe resistência a essa crueldade

A luz brutal já não alcança
Este quarto sem janelas
O olhar prostrado às telas
Da imaginação e da lembrança
Que já estão mortas.

By: Bruno

sábado, 15 de outubro de 2011

Spleen 7

Vem regelar em mim com sua vibração
A chuva que em seu ápice
Me despedaça com mão tão doce

O pentagrama que desenho em minha mão
Translada em mim o marco de outro mundo
Anematizado em forma poética

Delineia em meu espírito fraco
O sentido das coisas que quero ser
Que quero escrever, sentir

Frente à essa grotesca balada
Que retira do vento do mundo
Todo este pesar que é viver

Vertendo ao meu corpo dolorido
Mil faces, centenas de gostos
Horrores e desgostos
Demônios e falsos deuses

Já nem sei que traje impúdico vestir
A fim de lograr como um príncipe perfeito
A dança macabra que remexe estes esqueletos
Que tanto vejo e desvejo

Os temores mais corruptos como vermes
Atacam meus mortos favoritos
Como um cemitério odiado pelas estrelas

Doravante esse escombro
É matéria viva prostrada à ignorância
Ao tédio e à falta de curiosidade
Que circunda o mundo em grandes afagos.

By: Bruno

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Bel Air


Já não há mais sombra incolor
Que não é subsituída por prédios
Que aos céus se tornam vários assédios
O quanto se perdeu destes céus o alvor?

Eu me deixo persuadir pelas memórias
Enchendo minha alma de um valor puro
Com isso certamente eu desenclausuro
A saudade inflamatória

Que soluça aos prantos
Durante todo o passeio nostálgico
Não há nada nevrálgico
Na nostalgia mais sincera
Que nos cobre como um manto
Neste elegia que incinera

Os corações mais embriagados
Espelhos daqueles vultos que ficaram vagos
Porém jamais olvidados e que pedem para que voltemos
Pelo tempo que foi bom e que agora os querem tão castigados
Mas que se mantém os mesmos a cada trago
Do cigarro e da taça que brindamos e bebemos

A conversa que mativemos os corações amacia
Surge à tona o tempo menino
Bem no meio do soluço escrito
Eis que rompe Machado na fala que à literatura pertencia

Eis que as árvores refletidas no meu olhar
Compõem a rua que eu passei chorando e rindo
Mostrei a mim que o tempo infante era absoluto
O meu retorno àquele lugar modificado é meu grande tributo
Dotado de uma pureza e loucura simplesmente lindas
Assim como todos aqueles anos vividos sem pesar

Aquelas ruas são um jazigo amplo e repleto
Das minhas memórias pintadas à sombra do sol posto
O voar dos passarinhos para mim tem todo o encanto
Conto aqui que recebemos um envolvente afeto
Como foi valoroso este inusitado passeio proposto!
Como a infância que foi louca tem agora um ar sacrossanto!

O infindo balouçar deste lazer perfumado
Embriagou-me de essências confundidas
No asfalto mechas torcidas
De pétalas contrapondo-se ao céu nublado
De novo, aquela rua que cito vertendo-me saudades!

Vejo na saudade desta vez
Grande amiga do meu pensamento
Sinto-a demasiado neste acontecimento
Tomara que seu encanto jamais se desfaça da minha lucidez

Pois eu a faço terna e complascente
Enquanto outros talvez a tratem indiferentes
E portanto jamais perceberão que é um lamúrio do amor.

By: Bruno

(Des)sentido das coisas

I
O som da agua corrente
Me provoca um leve devaneio
Onde as copas das árvores em plêno veraneio
Florescem prateadas e sem formato aparente

Uma só luz sombreia esta manhã
O desdobre da memória marítima
E o sentido íntimo que legitima
Uma pintura artesã

A figurar no âmago como um vaso que se parte
Em mil saudosas imagens
Que saltam do além para o além como miragens
Sem justificar-me, deixo que minha alma delas se farte.

II

Que metafísica tem as memórias?
Se estas só duram enquanto há funcionalidade
Em toda parte do cérebro que tem por finalidade
Nos fazer os humanos pensantes, exploratórios
De toda a criatividade que nos colocou em civilização
Em organização e posterga nosso fim
De modo sem aparente esmo aos moldes do capitalismo
Minhas palavras toutinegram já sem ismos
Para a retórica que preciso para este motim.

O Tejo que percorre minhas veias
É o mistério das minhas entranhas
Que remaneja a cada gole o sentido das coisas
E me leva a pensar que as coisas são os únicos sentidos...
Das coisas, mesmo que sejam dispersas como a mordedura de um bicho
Mesmo que sejam finitas como nós
Mesmo que sejam oniscientes como Deus
Ainda que sejam vãs como alucinógenos
Ou acolhedoras como as flores e as ramagens

Me encontro praguejando algo que não tenho certeza
Como ter certeza de algo falso sem sabê-lo certamente?
Penso agora em grandes montanhas, grandes mesmo
Tão grandes que seu gritasse, elas não escutariam
Indiferentes de tão grandes, indiferentes e arrogantes
E eu cínico querendo ser visto, apreciado, sei que não sou
Afinal sou tão diligente quanto sou ébrio, então nem sei
Tenho receio, leitor, de que na dialética, perder o efeito
Pior, de perder o sentido, sei muito bem que falava do mar
Algo saudoso e tudo mais, mas agora inespecifico pensamentos
Pensamentos que constantemente bruxuleiam minha mente ébria
Como uma caverna preenchida pela maré
Dói erguer o olhar e o destino ser avistado como um leviatã apodrecido
Mosqueado de incertezas e pavores que nos rondam
Como rondam os delírios martirizando a sanidade dos loucos
Em busca do fim do efeito dos opiáceos
E assim bebo em cima de remédios e me repoltreio nos incêndios
Da minha inocência, da minha breve liberdade e da minha constante insanidade!

By: Bruno

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

The cat burial

A luz da manhã ilumina um corpo dormente
Sob o asfalto cru adornado por pétalas amassadas
Ele tem frio, percebe-se pelo olhar triste e calado
Sem vestígio uma vida foi tomada indelicadamente

O sangue misturado com a luz do sol fraca
Tinge aquele pelo branco desarrumado
O viver se perdeu da vista desconfiada
A desolação possui uma cor opaca

Aquela alminha atlética
Jamais verá de novo o ar da noite
Olvidado pelas almas rachadas e ao açoite
Das sensações fúteis e heréticas

Alma posta num devaneio tão solitário e tórrido
Devaneio que nem separa esta vida da morte
A um longo olhar verde cume dotado de realismo
A inexistência configura algo tão aleatório e sem sorte

Agora não é mais matéria viva
A bradar por noites e pernoites sem malícia
Deus tem piedade desta longa miséria
Não deixe que o vazio aquela pureza arquive.

By: Bruno

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Meses de chuva


Nestes bons meses de chuva
Eu sinto as gotas amadas caindo
Como o vinho que coadjuva
As melhores ideias pipocando e fluindo

As estrelas trementes dividem seu lirismo
Semeado nestas modestas rimas indiscretas
Que contam histórias que rangem como gavetas
Quando se abrem para contar seus cinismos

Vultos fantásticos e arbóreos
Mais impressionantes que o carvalho mais escuro
Condecoram estes êfemeros traços de existência corpórea
Com suas sombras e assombros, manias e algazarras mais obscuras

A luz que é refletia naquele rio sujo
Conecta loucamente as gramas e extratos arbustivos
Da margem à sua vida fluente e corruptiva
Lenta e provocativamente como um caramujo

Nestes bons meses de chuva
Somente o frescor ácido dessas gotículas
Agitam do coração, minhas aurículas
No alcoolismo langoroso das melhores uvas.

By: Bruno

domingo, 2 de outubro de 2011

A ballad of a deep desire

É antes da solitude que minha alma é doente
Quisera que, exalando aromas de saúde mental
Sussurasse sílabas que formassem algum reino venal
Para que o amor, grande afluente;

Derramasse seu punho despótico e irado
Sob a forma de grandes olhos esverdeados
Sem as purezas falsas e taciturnas
Para que nas minhas visões noturnas

Não sejas todo delírio e mania
Como minhas sílabas que fluem em cadência
Dos meus ferimentos ébrios e dessa fúnebre cantoria
Que passeiam neste coração triste com tanta dolência

Respirando como ressequida rosa
Quero afundar meus dedos trementes
Nos teus cabelos inconsistentes
Que me encantam de forma tão criminosa

Assim engolindo meus arquejos mudos de súbito
Afogarei minha aflição e meu lamúrio se permitir
Posto que o meu fervor onírico atiça minha súplica
Colocando dócilmente a cabeça em teu ventre, se para tal me coagir
E dormirei um sono doce como a morte
Ah, que sua paz para sempre me reconforte!

Não quero apenas invocar tais horas ditosas
Em um sonho distante, é uma clausura
Quero algo além da formosura
De um amor de sensações várias e langorosas

O que eu almejo é uma paz indefinida
Sem alvorossos que eclipsem minha aventura
Nem mais a loucura que atravanca infinda...

By: Bruno

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Le sort des larmes

Sempre o vento de tristeza que percorre minha alma em mármore
Desperta uma singela lágrima a percorrer sinuosa
Até a ninar evaporada nas nuvens que sorriem culposas
Nesta época de literal e perversa imémore

E por firmamento ébrio constante das monotonias
O bom arquiteto de fantasia
Lapida calmamente sua obra que nunca atrofia
O oceano domado por pedrarias

O pêndulo inorgânico há de cobrar seu preço
É atroz e desumano, mas merecido fato
Daqueles cuja esperança se faz artesanato
O trapeiro que foi humano há de ser sucesso

Sempre digo ao meu gosto depressivo
Que a esperança é sinfonia a aflorar-se inglória e sombria
Aos corações inconquistados até das divindades mais fastias
Um desespero sem igual, de remorso abortivo

Posto que piedade é um desdém à dignidade
Falsa e desgostosa, fiel desonra
Não vê tamanho perjúrio quem não aposta no cinismo da humanidade

E façamos dançar à luz de um sol renovado
Uma decadência à nossa moda sediciosa
A criança ávida de sonho recém-arquivado
Ao sadismo, inconsciente e jovial tortura deliciosa
Eis a realidade, incoerente, não?

By: Bruno

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Elegia para a bailarina

Sob o leito de brilhosas flores amassadas
Observo a vossa dança quase entristecida
Sob o leito dos luares calmos, mas alienados
Vosso semblante apaga-se dos sentidos esmaecidos

Vosso peito, bem me lembro, era o remendo do infinito
Cheio daquele fogo demente que deu lugar ao progresso
Vossas visões, céu, liberdade, delas também me envaideço
Embora vossa dança sempre permuta, serei sempre maldito

E em meu sono feliz de menino mimado
Por vezes recordarei daquele tempo ido
Os sorrisos hoje partidos, o abraço prometido
Mas não guardo dissabor, ainda por mais odiada

Seja a lembrança que tens de mim;
Pois apenas colho o bem estar da fantasia
De sempre ter apreciado só o palor da vossa agonia

Posto que fora uma boa dose de emoção
Para minha estremecida ventura,
Do controverso elogio que me fez, o dom da aliciação
Eu sempre me embriagarei.

By: Bruno

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A espera


Folheando páginas e mais páginas
Procurando nelas a linha do horizonte
Perdido entre o que meus braços não podem agarrar
E o que eu não quero soltar
Mas antes que as ideias eu desponte
Saibam que o sol é de longe uma das coisas mais trágicas!

Eu não me importo em contar, embora não sei se devo
Que eu aguardo do tempo uma solução
Aguardo com tamanha prontidão
Enquanto aguardo, eu leio, estudo, escrevo

Os meus vários sorrisos oscilam involuntários
A causa é desconsolação do meu espectro tendencioso
Por muita vez deixei cair os braços sob o por do sol embaraçoso
Eu renego fortemente esta epiderme de medos desarbitrários
Em vão

Não sei que sentimento ainda inexpresso
Me aflingirá de modo sufocante e bem de repente
Munido de um cansaço exorbitante e incondizente
Com a disposição ausente mas com sorriso eu me subestabeleço
Suspiroso

A noite é dama antiquíssima
O ente que entende melhor estas máscaras
Seu xale franjado de infinito é de fato elegantíssimo
Prostramo-nos juntos a ouvir o som das cítaras

Vem solene aquele sono que austera
A dolorosa espera que é esta vida
Cheio de esperança vazia e partida
E a copa das árvores bebem a dolente primavera...

By: Bruno

sábado, 24 de setembro de 2011

A nau tecnológica

Refazem-se nas minhas mãos o relento daquele tempo no mar
Nos dedos um constante afago de modernidade
Luxo e luxúria misturadas em confraternidade
Ah aquele sol à janela, a maresia, que belo ar!

As moedinhas sacolejam nos máquinários
Consumimos a pouca fortuna
E seguramente bebemos, lemos, diferente da graúna
Livre a voar no horizonte toutinegrando sedentária

Sempre a pousar de volta nos mastros da nau
Perdida junto aos humanos lassos
De consumismos desenfreados e descompassos
E eu bebendo em Vinícius este pequeno sarau

Em seus salões finas músicas tocam
Emproando as pessoas finitas em grãos melódicos
Fluindo em seus cernes bebidas constantes e espasmódicas
A medida que diversas outras naus também desembocam!

As árvores já não ouvem o vento
A graúna desaponta-se, se sentindo sozinha
Saudosas férias que irromperam na marinha
Nos cassinos e no turismo sem endereçamento!

Naquele tempo eu fui o mar, eu fui!
Sonâmbulo e ébrio, bruxo velho
Corpo tão disforme quanto o silêncio fedelho
Sem dimensão, dentro da treva que me dilui
Despedaçado e infinito, e infinito, infinito, infinito...

By: Bruno