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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A lição de Prometeu


No estalar mágico que se ouve
As sombras que se avultam
Em seu bruxuleio, despertam
Os receios a atacar de monte

Mesmo sem os nomes conhecer
Como se em áureos ondulantes,
Os maneirismos tortos e flamejantes
Propagam o impenitente adoecer

O que foi um pequeno presente
Transfigurou tudo, tão de repente
O Titã, não por correntes punido
Mas por seu consternar, pungido

Ao portar o clangor da aclamada luz
Não exultou o abismo nem aos deuses
Ofendeu, ofertando amenizar os frios meses 
Toldados pela neve a jazer a nova Cruz

Inevitável foi o maldoso interpretar a conduzir
As novas ações, à tudo conhecido destruir
E destituído de sua polaridade, o tempo,
Efêmero, não pôde mais por flama se traduzir

Sob o véu gris, agasalharam-se os frutos,
Não do Flamívomo presente de Prometeu,
Mas de seus grilhões, brindando os lutos
De ser dos Ardis mitológicos, o maior Fariseu.

Bruno Borin

Promessa

Na alucinação das coisas ignoradas
O êxtase das distrações mundanas propaga
Um carnaval de corações flamejantes
Em labirínticos ideais e choros ultrajantes

Em telas avulsas e repetidas, destoantes
Das promessas que clamam tão atroantes
Exalando o aroma da presunçosa juventude
Despindo-se na vil vala das multitudes 

Dispostos como marmóreos fetiches
Florescemos já nas tumbas potestatórias
Nas febris saúdes e encantados incensórios 

Olvidando das alteridades seus trapiches
Cultivamos nas obscuridades oratórias
As opacidades melódicas das misérias. 

Bruno Borin

Andando no escuro


Tauteando crepúsculo adentro
Cores de mista e confusa elegia,
Sazonais desejos e vãs agonias,
Nos hinos trêmulos que elenco;

Me perco nos acordes o amargar
Despetalado de meu sentir,
Ao revirar lembranças a farfalhar;
Sem perguntar do porquê insistir,

Em uma imagem que, distante
De qualquer coisa familiar
Apesar do teor pouco atroante 

Ressoa em um íntimo inverno
Cujas badaladas, consigo escutar
Do lastimoso, mas meu significante.

Bruno Borin

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O poema deve ir embora


Ser visto ao longe
Se alastrando
Vagando 
Se distraindo com o mundo

Rumo a outro olhar
Fazendo-se perceber
Por seus eleitos
Aqueles que se deixam ler

Afetivo, o poema nunca chega
Transita de alma em alma
Perde um pouco da forma
Outro tanto do sentido

Uma hora é rima
Outra só conjugação
Mas a vontade cisma
Mesmo é com a conjuração

Ele só existe pra quem o enxerga
Soneto, quadra, ode, ou epístola
Sagrado mesmo é o coração
Que o abriga e se diz poeta

Mudar o mundo ninguém consegue
Mas com o que se sente
Pode-se ir além de si mesmo
Fazer cor onde não costuma ter

Espinho todo mundo tem
Queria ver mesmo quem tem pétala
Pena, pluma ou poema
E se decorar com a palavra
Que nem açucena!

Bruno Borin

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Lua de sangue


Lua de sangue

Na sagração dos lampejos rubis
Os deuses apócrifos dançam
Na fronte baça, coroada de  gris
Das essências que os perpassam

Na pungência do infinito vestido
De geometrias estranhas, à matéria, 
Estes obductos seres, são vertidos,
Iluminando de escuridão a romaria

E nestes raros, mas sinfônicos ocasos
Deleitam-se em ritos, as figuras humanas
Como em deliquiosos, mas áureos Parnasos

A harmonia das correntes sanguíneas
Canta sonhos de místicas hosanas
No ascetismo velário desta hora ígnea.

Bruno Borin

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Sinfonia


Sinfonia

Quando os movimentos
Guardados nas imagens
Provocam sentimentos
E em pequenas ramagens

Extraviam do corpo arfante 
O desejo; já não se sabe
Se é felicidade calcinante
Ou tristeza que não cabe;

Testemunhar tantas pinturas
Nas vivas expressões, doçuras,
Que já não pesam as vozes
Das dualidades algozes.

Só dos gestos as sensações,
Ambos corpos por idealizações
Tomados - provocado e provocador
Em uma sinfonia de exaltações.

Bruno Borin

sábado, 29 de agosto de 2015

À sombra da Amoreira


Desprovida de paisagens, a fronteira
Que me separa tem sabor de aurora,
Lá, onde as cores todas corroboram,
A perda do sentido se aviva à maneira

Dos horizontes cingidos pela Amoreira
Cuja extensão dos galhos dolentemente
Reinam hoje sobre as luas de Cereja
À amortecer os sentimentos docemente.

Fácil é me bastar de seus infestos frutos 
Que me retornam a um eu mais fantástico
Mesmo que lá os sorrisos sejam plásticos
E a vontade negada em seu salvo-conduto!

O luar erra em minha vida, ao despejar
Seus escuros; o sonho gravado de ouro,
Contra a vida pendendo de único grafar;
Redigir nela as efígies do meu calabouço!

Carregando pequenas ermidas sem altar
Como gotas de um fogo incensório
Nas minhas azáfamas sem repertório
Comungo das razões da dúvida a clamar,

Com medo das cinzas brasentas dos amarantos
Medrarem os estios da alma, peço e peco
Com o volume de meus vocábulos amarrados
Jurando que minha medida é meu começo...

E qual se me levasse, todo este mágico levante 
À sombra da Frondosa Amoreira, cromatiza 
Enfim a vida que povoa meu interior e enfatiza
Que busco a apreciação de meu desejo errante!

Bruno Borin

sábado, 15 de agosto de 2015

Sinagoga


Nos sinos do campanário,
Sepulto resta o horário
Enquanto o estribilho,
Dualiza seu vago brilho

Entre o carinho da rima
E o bradar da dualidade;
Entre ferida e vindima,
Quando ambos, mocidade

Representam, nas distâncias
E nas aproximações, sejam
Puras ou sujas, não referenciam
Mais à escansão, onde revelam

As verves que as impulsionam;
Impossível declarar quão razo
Pode-se mergulhar, quando alavancam
Os dramas para o escândalo...

Assim abstrato, como as mutações
Do sonho, e de tudo aquilo 
Que não combina com esquilo.
Já que pelo ou pluma, são abjeções

Impedidas de derreter, como os poetas
Ou os admirados icebergs
Que emergem sem qualquer albergue,
Que abrigasse a tantos planetas

Dissolvidos neste viver sem plano,
Nesta lide sem conciliação,
Já que insepulta, a paixão
Perdura como um ritual profano

Necessário para manter-se 
Nesta era dos prazeres mundanos,
Como o império Otomano 
Sigamos, então, enterrando o perder-se

Nas culturas do Outro até juntar
Tantos deuses que, sem contar
Mil novenas, já livres a profanar,
Juntam mais de mil altares a rezar

Sem nunca culto proclamar;
Sem ritual próprio ou reza,
O clamor certamente medra,
Nas mesas, nas cervejas a brindar!

Bruno Borin

Apelação


Desculpe falar do meu apelo
Mas este meu desespero
É fonte de outras dores
Medo de morrer de amores

E nunca ser correspondido
Em tudo aquilo que deveras sinto
E de que te afastes escondido
Com o pensamento de que minto

Confesso a pressa e o exagero
Muito longe de ser desleixo
São do encanto que se instaurou

E por mais que me descabe
Temo que abrupto acabe
Este amor que mal começou.

Bruno Borin 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Teatro


Suspiro sílabas moucas,
Não ousaria dizer muito:
O essencial se aproa
No incerto mas pertuito.

O rigor mortis do ideal
Até mesmo no sentir
Se traduz em flama fanal
Sem um outro a transmitir,

O efêmero calor dos trópicos 
Ou o brilho esquálido dos olhos
Mesmo através da máscara
Noh, e desta mentirosa cítara

Tão longe quanto os amanhãs,
São os acordes de um sentimento, 
Completamente esquecido nas manhãs
Onde nunca houve prometido alento

Fechando o futuro em minhas mãos
Mais uma luz se queima na cisão
E um estilhaço cerzindo um sorriso
Nos lábios que esboçam um improviso.

Bruno Borin


sexta-feira, 3 de julho de 2015

O vulto


Na horas mortas, vulto
Nosso pélago, deriva ameno
Invadindo, feito veneno
As dualidades em tumulto.

Vulto vago, lá de outras eras
Versa em aflição o pensar, deveras
Quando soma-se, deletério, ao penar,
Das misérias desta época a passar.

E o sentir; misto de deslumbramento,
Dolorido do augusto pensamento,
Gela em anseio de ver-nos sem abrigo.

Os piores males, acabamos alimentando
Com este medo, tenebroso e caro imigo,
Que nos acusa enquanto descansamos.

Bruno Borin

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Desfile


Saltando direto do deserto de betume,
O oceano de luto deposita fantasmagorias
Em meus olhos, como se a ausência de lume
Atraísse às flores atrozes, as decompostas árias

Da multidão em desfoque, fazendo desfilar,
Na possessão das aristocracias vocabulares,
Mnemósine, tecendo-me os rostos a vagar
Nos corredores arredios, aos milhares,

Em um mundo eternamente carbonizado,
Perto dos velhos refúgios e das velhas flamas,
Fazendo ouvir seu crepitar dissimulado
Ao degustarem as vozes restauradas

Das harmonias que compõem as inspirações,
E as experiências inéditas, com esplendores
Coloridos demais para estas multidões,
Que se espargem cinzas diante dos fragores.

Sem altar, a Memória, opulenta conspira
Sua ornamentação nas seivas do intelecto.
Tragando em claridades impassíveis o aspecto
Dos ardores da culpa que perfaz a Pira, 

Tão sólida quanto Sua flava Coroa. 
Embora, a inflexão da finitude 
Se ajuste ao meus ritmos, 
Já não me faz vítima dos algoritmos 
Caçadores da eternidade.

Bruno Borin

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Rosas negras à Terezinha


Procurando por ti nos telhados
Me prendo à minha solidão
Pois reconheço que foi a mim
Que perdi ao partir em pedaços

"Quantas vivências o coração precisa ter
para aprender que nada será seu?"
- Penso isto deitado na cama, 
Tentando sonhar em ser um outro

Que dava rosas negras à Pequena, 
Não por sua perda, mas por sua 
Breve intrepidez, nos muito dizendo
Como devemos amar, fagulha a alimentar...

Se nós nos encontrarmos novamente,
Vou pensar em seu perfil lavado de lágrimas.
Pois, fugazes, os sentimentos se esvaindo,
São como a passagem das estações...

Mesmo que estas palavras soem como rosas
Enegrecidas pelas vibrações mundanas
Elas contém o que realmente senti
Sobre a verdade que queimou meus olhos

E mesmo se o amanhã se esquecer de ser vivido
Esperarei sua mouca voz anunciando
A lembrança que já não posso mais alcançar.

Bruno Borin

sábado, 20 de junho de 2015

Arquipélago




À umbrosa margem do lago,
Nódoa de orvalho a pairar
Na superfície nulinerve do fado
Como lágrima doente a lograr

O êxodo das emoções escoadas,
Semeando canções esquecidas,
Mesmo nestas limitadas quadras
Como crases bruscas, arrefecidas

E imaginadas na melodia da vida
A constituir papéis rasgados 
Nos significados mitigados
Embora explorados, desta vencida...

Mesmo que meu sangue grite
Minha voz arrancada se estilhaça
Em um Eu que apenas se embaça
Ao tentar entender do mundo seu rebite

Enquanto minha imagem significar,
Poderei livremente transitar:
Metáfora eterna a transmutar;
Até aprender a coabitar,

Embora, os triunfos obscuros 
Vertiam em sangue puro
As lágrimas em pequenas barcas
Imersas em águas tão obtusas...

Esquecendo de perguntar o que sinto
Sobre a apoteose que me irrompe, 
Transpondo qualquer Hecatombe,
Percebo do muito que clamo labirinto,

Sem ópios; é a notívaga nostalgia,
Provocando hemorragia e pressago:
Entre tantos vagares, o Amontillado
Se faz presente na amortecida mania

De procurar no velho mundo,
Traços de um novo continente,
E no mais visceral e figurado repente, 
O verbo que na vida opera, profuso;

A reconstrução de todas as perdidas
Ideias, de toda a emoção esquecida
Encontra-se na pátria esculpida,
Das palavras maculadamente escritas.

Bruno Borin

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Poiésis


Cama de folhas
Acolhem o pensamento:
O tanto que olhas
Dispersa o pensamento.

Os deuses de outrora
Roubam o acalento
E a era antiga desfolha
Em rapsódia, o encantamento.

A dança do Sátiro alumia
O laço dos idiomas
E a emoliente poesia,
prisma dos sintomas;

Sopro incandescente, 
Mais potente que os sonhos
Embora o embaraço
Seja mais transcendente

Que o eco, quando se esboça
Frente aos cânions da memória,
Ao nos iludir com a prosa
dos tempos de ambrósia,

Rompendo a secreta arquitetura
Do claustro do coração
Como uma repentina monção
Explodindo em mágica ruptura.

Bruno Borin

Partilha


Nuvem gris dividindo os idílios
Um silêncio encrespado configura
A passagem dos ventos, Bulícios;
Certos de que a concentração assegura

O prado das sortidas respostas lineares 
Que fogem a quaisquer habituais direções;
Enquanto a centelha fresca e inquisitorial
Fraqueja diante do embaralho da induções

Eclipsando as vidraças oculares, os brilhantes
Desígnios não permitem façanhas ofuscadas
E a dualidade que invade conta eloquentes
Invencionices, como se houvesse uma afastada

Verdade a se estilhaçar em minuetos sacramentados
A comistar com as viscerais fantasias, nas êneas grades
Do peito a fervilhar no pântano das emoções caladas
E assim o Moinho vai se desfigurando em metades

Sempre certas da arribação das agruras, vertendo
As cores, o prisma, nesta nuvem gris que divide 
Os bens mais preciosos da minha escuridão.  

Bruno Borin

terça-feira, 12 de maio de 2015

Aperceber-me

Do luar que beija o chão
Nasce um cinzento azulado
Que me aquece o coração
Ao dormir bem ao meu lado

Ao secar o pranto, adormeço
A dor que deveras sinto, defiro
Assim o que vivo e o que sinto
E em meu andar, sem saber, esmoreço 

Se o tempo corre, prefiro não saber
Embora nos baralhos da vida
Tenho perdido a carta  querida

E, vazia, a sorte que conto ao vento 
Se dá aos silêncios do sentimento
À varanda exposto, como que ao relento...

Bruno Borin

sábado, 2 de maio de 2015

Tão simples quanto uma frase musical

O tinir de canções mortas anunciam
A certeza de mais um coração quebrado
Mesmo com o cenário perfeito montado
Quem diria que sorrisos entre si conspiram?

É no silêncio mais astral que a ruína de si
Se apresenta aos brilhos preciosos dos desejos
E a matemática dos momentos de infinito, ri
Da pobreza numérica dos moucos tracejos

Que os sentidos desdobram do real
É certo, os fenômenos se comovem
Mas apenas para coligir o vendaval

Das vãs revoltas e fulgurações
Que um quebrado coração
Pode trazer ao céu das objeções.

Bruno Borin

Contestação

Pelo direito de esquecer
Operam-se constelações
E todas pequenas motivações
Tão elegantes quanto apenas ser

Impossível imprimir no dia fosco
O brilho imperial dos edifícios
E o gosto metafísico por vestígios
Do sentir exagerado e exposto!

Se a natureza primitiva é trabalhada
Que seja também a vil defesa
Já que uma versão tísica nos é talhada 

E a cidade segue assim, consumindo
Tão arcana quanto a justeza
De seus esforços de perfeição bramindo!

Bruno Borin

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Hecatombe



 Dardejando centelhas transitórias;
Os Centímanos portadores de escórias
Me abarcam no horror da sátira pessoal.
Translado de ingênita amargura, o cipoal
No qual me acosto, é dotado da urtigante
Sensação de ser abjetado ou até  fustigado,

Pela salubridade da pulsão alheia, corrompida
Pelo sal das agruras mundanas, onde se avança
Um degrau por vez, na conspiração querida
Onde o gozo da justiça rosna tal o Carranca
Na proa da aparência, febril espelho a mostrar
Um obscurecido Apolo que se assoma ao Escusar.

Sujo desta negra revelação, meu cosmo interior 
Migra, degradando suas níveas estrelas em nome 
Da harmonia patética que neste céu ainda dorme, 
No pó dos astros que se formam com mouco fragor.
Escravo da coesão, o que sobra há de integrar
A inércia do pensar, prostrando-se ao afastado versar. 

Os assassínios, portanto, não piores que estes paroxismos
Se enchem de trismas, a martelar em transtornados leitos, 
Uma posição imanente aos laços a queimar no peito;
Arquejando uma decisão; almejo avulsar-me destes xistos
Mesmo que provoque um hecatombe, estas Centenas mãos
  Não me segurarão entre seus acres escombros.

Bruno Borin

terça-feira, 7 de abril de 2015

Soneto New Age


Coalham-se estrelas no céu
Sob o manto das mentiras,
Tornando todo vivente revel
Em suas próprias armadilhas

O desfile das sombras remete
À pequena fantasia projetada,
Nos versículos que prometem
A fuga tão, tão imaginada

Como o grande Flautista,
Hamelin não parece tão longe
Como em pura fé Sacrista

Onde o dossel do ativista
Se cristaliza no muito prometido,
Coisa que pode cegar o idealista...

Bruno Borin

segunda-feira, 30 de março de 2015

Soneto Guia


Pelas cores que tingem o mundo, escrevo:
Em Imagens divergentes do mesmo sepulcro
Encontro as criações em variegado enlevo;
Perspectivas se formando daquilo que é pulcro.

Somente descalço se pode sentir a Una melodia,
Porquanto a pálpebra demente nos turva o prisma,
Onde cor e som se fundem em uma única ousadia.
E a verdade se salva de herméticos aforismas.

No sibilar da verdade se acha a incerteza
Caminhos cruzados, onde o espírito se enlaça
E o recomeço se dá na dor mais lassa.

Perder-se nas inversões é inevitável clareza
Luz é sombra e sombra é luz, pois baça
É a visão e a Trova perdida é a rota!

Bruno Borin

segunda-feira, 23 de março de 2015

Outonal


Esperando colher em tela prata
Um tenro fruto do pensamento,
Ferido pelas sutilezas do alento
Ao Singrar pela surpresa inata

Rumo aos rastros vagos e imersos,
A correnteza do imaginário decanta
Óperas em meandros crepusculares,
Para onde vão os vocábulos sem lares. 

As Musas cantam os acidentes científicos
Das valsas que dançamos em sonho mastigado;  
E sob um silêncio rigorosamente encrespado,
As escrituras do sentimento são impudicas

Lareiras Negras, de onde o espírito manifesta
Seu rebelado brado contra Chronos opressor,
Na tentativa de ser livre como o sempiterno alvor;
Sem as disformidades de se mendigar as Serestas.

Enquanto a doçura florida das estrelas encantar,
Os céus se farão abismos para a mente curiosa
E com a angústia de não decifrar a Mentira ciosa,
O Artesão degustará do amaldiçoado fruto 
Do outono do pensamento. 

Bruno Borin

segunda-feira, 16 de março de 2015

Metapoema

À procura de um Metapoema
Que se desfaça no intento
De falar sobre qualquer tema;
E nele me esconder, invento,

Qualquer frêmito de existência,
Para nele viver um pouco mais
E ver a fagulha das verves adrenais;
Esta opaca fagulha de permanência

Com ou sem o peso dos passados.
- Enxergar com o coração muita vez,
É tarefa envolta em vícios represados,

E Compreender desses Plátanos 
Seu dialeto, requer a desfaçatez
De abalizar os copiosos desenganos.

Bruno Borin

segunda-feira, 9 de março de 2015

Hemorragia

Confronto o sonho e sua litania,
Encontro um eco nesta travessia,
Não sei se de, tonitruante voz, jazia
Somado ao algoz, simples arritmia.

Antes que mais vozes me invadam,
E meus prados, sitiados, obscureçam;
Teço, teço a renda íntima do sentir
Com o tecido conjuntivo do bramir

Porque em cada poema há uma gota 
de sangue, que infame, brota,
Sem o devido corte, que reboa

No imaginário, este que afoito troa
Nos reinos da criação, galgando nota
Por nota, do indizível que se assoma.

Bruno Borin 

Identificação

Embora do infinito, esteja tão distante
Não sinto a desolação Azul proclamar
Em quadrantes ondeantes, o destoante 
Dissabor, em meu ressonante porfiar.

Da infinitude persigo a comunhão;
De sentir em sentir, trôpego diapasão
Desfaço, unindo a mim Vergéis floridos
E refulgentes pensamentos, brandidos,

Das muitas ressonâncias em harmonia;
Feito celeste tratado, de aplacar a estrelada
Melancolia, matrix da ávida agonia

A peregrinar, cultivando monotonia;
Sobrando ao colher, nada mais que atonia
De seus próprios passos na árida estrada...

Bruno Borin

segunda-feira, 2 de março de 2015

Ourobórica sombra


Da oculta efígie, assombra seu reflexo;
Ignota emoção a pesar na memória,
Encrustada melodia, em amplexo
Cerceando os feixes da ígnea e merencória

Reflexão, sob os habituais códices
Do mesmerismo sem bússola, trançada,
De forma a ser sempre reavivada 
Em crepitantes e ríspidos vértices,

Que cadenciam em esmerados véus
E em negrume envolvem os sentidos
Forçando os lassos dizeres, vertidos
A singrarem condenados como réus

Na tribuna do coração, deambulando
Como o verme na lápide, a roer 
E roer, até o derradeiro sonâmbulo 
Calcinado, em eterno cálculo, esmorecer...

Bruno Borin

À procura de prelúdios

Ao longo do inexistente Pinheiral
O princípio pelo qual caminho
Comista com o fim do fátuo ideal
No solo das Palmeiras que assino

Com minha visão incorrespondente;
Comungando de malogradas alegrias
A lírica boreal e sumista das magias
Que meu mundo compreende.

Se a razão for sacra, ocultista será 
Meu desengano, pois certo perdurará
No alpendre de meus passados dias.

Não importando ao fim, em que benesses,
Ou maledicências morram minhas preces,
Enquanto escuras forem minhas primícias...

Bruno Borin

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Tabulação


Sou um recorte tirado
Das páginas secretas da vida
Rascunho revirado, remontado
Composto de letras perdidas.

Rasguei uma nuvem,
esqueci que existo.
Diante do imprevisto
e da poesia não vem.

Com tanta cor escrita,
perdi a minha, nesta infinidade
E esse prisma que invade,
não me quer, não me acredita.

Fustigado, entre os entulhos 
de mim mesmo, cheio de marulhos.
Não sei o que pretendo encontrar
Se o corpo que não posso saciar,

Ou a alma que tento alimentar.
O que fazer com a paixão,
Escandida com admoestação?
Um amuleto antigo a se corromper

Ou um punhado de versos
Que jamais hão de resumi-la?
Mesmo com tantos esmos
Talvez não consiga abriga-la.

Muito perdi sem ter jogado,
Colho do olvido os suspiros 
Do luar solitário, sem ter amado,
Meus gestos não compreendidos.

É amargo ver as moções desperdiçadas
Em um cotidiano sem colheitas.
Sempre, em sensações remendadas,
Promessas caem, um outono à espreita.

Vida e memória são da mesma sebe
Germinadas; daquilo que se vive
Pouco realmente se concebe
Sem pormenores, inclusive! 

Gastei meus discos solares
Querendo apenas viver,
Mas, dos variegados ares
Pude tão pouco saber...

Bruno Borin

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Palavreado moderno


Essa vida touchscreen vai nos conduzindo
- Seres de toques, tudo na ponta dos dedos
Livros, jogos, pessoas e  até mesmo os medos, 
Estes tantos affairs modernos nos reduzindo...

A magia do apego a si, às coisas e às pessoas, 
É a mesma do desapego a si, às coisas e às pessoas;
Entre as vidas florescem as indiferenças enumeradas
Como a mais pura das espúrias, virtudes plantadas

Das lívidas memórias, amor, passado e futuro, tudo
É o mesmo no conceito, a vida das telas, contagiosa 
Tão vívida, se esboroa no menor delete, prodigiosa
No mais descabido aceite, e a total potência do mudo!

Tantas doces faces, cada uma mais singular e única,
Todas pensando serem singulares e únicas
E ninguém disposto a vestir a umbrosa túnica
Do espectroso silêncio a contemplar severo olvido.  

Meu coração já não conta quantos altares 
Para nenhum devoto, tantos deuses enaltecidos.
Quando voltarão a ser meros fiéis ao real nenhures,
E se comportar como os eternos esmaecidos?

Bruno Borin

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Imaginário


No céu do meu delírio, cor é música
Fecundada nas tintas dos sentidos; 
Verdades infeccionadas de revertidos
Teoremas, pura tradução e mímica

Do olhar distante e prosaico das flores,
Preocupadas apenas com seu colorido florir,
Como se da vida bastasse o singelo sorrir,
Matizando com ideais os tórridos palores.

Fazendo assim descansar os corações,
Do indomável e traumático espetáculo;
Tornando a sensibilidade o receptáculo

Da vida polinizada com pétalas, prismas
De poesia, - a mais raras das monções,
Que aplaca as reais inanições das cismas.

Bruno Borin

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Da escrita


Poderia conceber inúmeras dualidades,
Mas, em nome de um novo rosto,
Diante do oceano oculto de veleidades,
No procurar um dizer, assim posto:

Às portas do pranto, frente ao vazio
Do passo vacilante, não há seguro norte
E a fé talvez abjeta, confirme a má sorte
Produzindo da escrita o negro estio...

Galgar a estrada da poesia é tortura repetida,
Porém, mesmo com o coração cansado,
Versos sempre afloram de uma vida dolorida.

Com a magia de uma memória esquecida
Urge-se contradizer, usando o inventado,
A incerteza de uma trilha reprovada.

Bruno Borin

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O dom da perda


Penso em todas as coisas que perco
E que jamais caberão em um soneto...
Que sei sobre a vida, a não ser o passar,
Onde os segundos, minutos estão a escoar?

Quadras e quadras distantes, a me levar,
Copos e copos a degustar, incoerentes,
Fazem do despir e da exposição um ente
Tão presente quanto o verso a rabiscar

Onde quero transitar? Por pontes invisíveis
Ao palpável desatino? Ou de mãos dadas
Ao infinito desconhecido? Ambas tão atadas
A uma coleção de tramas mágicas e intransponíveis!

Em um verão como esse, brancas são estas escolhas;
Fosfóreas luzes a bramir em uma noite sem estrelas.
Ponto-cruz, creio que seja o meu, e mesmo à desfolhas
Sigo derramando o bordado de um dia sem parcelas,

Desejando algo que tramitasse entre meu querer
E meu sentir, envolto em uma luz que o escurece,
Mas apenas transito entre pontes que esmorecem
Mesmo entre luzes, os artifícios não pavimentam o ser.

As silhuetas primaveris se esvanecem perante 
O banquete das vidas que me comemoram
E as inspirações que sempre férteis, se afloram 
Dançam no vazio do sentimento errante.

A lição das flores é bem clara, suas fragrâncias
São o presente de uma vida bem vivida.
Com o coração quebrado, não tenho saída,
A não ser semear na palavra, minhas infâncias...

Bruno Borin

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Mandala


Na tapeçaria do espírito
Não sei o que poderia bordar;
No dorso da melodia a porfiar
Singeleza ou rito, o pouco bramido

Me retira da moldura, de onde,
Pregado, seguia no ritmo cadafalso
Desta caligrafia, tinindo por algo 
Áspero, como das grades ao fronte.

Os começos não mais se distinguem
Dos finais, onde as fitas se enlaçam,
E as lembranças perdidas me oprimem,
Tingindo os céus que se desembaraçam.

Ignoro flores e caminhos, absconsos 
Pelo horizonte sombrio e latejante, 
Entediado com o pouco que ouso,
Na linearidade da quadra jactante.

Solene é a decadência prostrada,
Dentro de um traçado projetado;
O que aqui nasce, nunca a estrada
Cruza, antes de ser caprichosamente alvejado.

Ao mirar no céu, aquele pequeno furo
Que tem solitariamente me acompanhado,
E comigo compartilhado delírios de futuro,
Mesmo sabendo de meu corpo fustigado.

Me pergunto o que tanto alumiava
Com a flama, senão eu mesmo?
Tentando ver o que atormentava
Ou apenas gritando contra o tempo.
  (Lapidando com tanto esmero)

Se as coisas como as vi me esquecessem,
Queimado seria pelo que deveria ter sido.
Andarilho dos círculos que, ao se esvanecerem
Levam consigo o que têm me constituído.
  (Configurando a exegese do exagero)

Bruno Borin

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Incredulis visio


                                                         A Antero de Quental

Em fome de vida, me assemelho
A um antigo Deus esquecido.
Me sentindo um pouco remido
Ao ler através de um lume aceso

Páginas ritualísticas desacreditadas
Há muito, como se nelas procurasse
Uma alternativa a esta mortalha rendada
Que, por suposto muito me entristece.

Mas, preso em secular imaginação,
Os versos me abastecem dessa teia
Incendiária que minha procura ateia,

Em liames de infinito, como contratos
Cujas cláusulas reverberam o mistério
De viver sem um altar ascetério!

Bruno Borin

Narciso ou O sintoma


O que, um dia eu aguardo?
Revolto em sombras que me guiam
por adentro dos gélidos adendos
das almas vizinhas?
Não oiço flautas e oboés,
os deuses me são mudos
por estas turvas vozes alheias
a gritar o mesmo grito de cansaço
e as mesmas respostas que eu...
Por isto, não erigirei preces
nem altares; seguirei tão torto
quantos às águas do riacho
que me estilhaça quando nele procuro
um reflexo...

Atado aos ideias da beleza; 
de surpresa em surpresa,
navegando, mãos e pés
já não sabem mais tatear. 
Entre grades inventadas,
figuras em formato de flor
desabrocham nos horizontes
das perspectivas perdidas.
E diante da percepção ausente
soçobram o fôlego e o desejo,
a Candeia latente das emoções
já não cerze um só verso de amor.

Mesmo em mil vidas, perderei 
o bulício de Eco, a se desdobrar
em desespero por um olhar
que não posso dar; Por um beijo 
que nunca ousei roubar; 
ou ao menos cogitar em meu silêncio;
Absorto, em meu caríssimo morrer...

Bruno Borin

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

E se eu recitasse poemas...


E se recitasse poemas?
Saberia por qual começar,
Como se começasse a falar
Sobre todos meus dilemas?

Ou sobre os fatos da vida 
Como este, o de recitar. 
Como escolher o que criar?
Dentre as melodias da cítara?

Sim, esta que vaga por entre as Vagas
De minh'alma e simplesmente divaga
Em qualquer matéria que pouse

O meu interesse e, que meu ser ouse
Mesmo nem imaginando qual saga
Percorreria, se recitasse minha própria chaga!

Bruno Borin