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quinta-feira, 17 de abril de 2014

A visita de Pisquê


Isolando a virulência do meu paradoxo,
Ao craquelar as horas em sôfrego lume
Crepusculares odes qu' invadem dos numes
Colorem as costuras de minh'alma com tons roxos,
Quando, de súbito, emergem dois góticos altares
Cobrindo boa parte dos densos hectares 
Do meu hipocampo, quando uma figura
Se materializou com estranha e etérea doçura

Quem és tu? Musa ou mortal,
Demônio ou donzela boreal
Teus são, estes altares evocados?
São do tempo dos mágicos bardos?
Ó jovial e encantadora, foste desertada
Da hierarquia dos Olimpos e prostrada
A habitar a inconsciência daqueles que criam?
Flor sem oráculo, como tu antes vivias?

Não sei se assombras ou se cativas, mas sinto,
De ti emanarem sempre proféticas ideias 
A devorar o cérebro como maléficas moreias
Porém hoje entendo a transmutação do meu labirinto

Eis que a voz imanescente me conta teus segredos:
- Um é para a ideia, florescente luz embaraçada
Outro é para a poesia, murmúrio da vida tresloucada
Tem de passar por teus cruéis arvoredos 
Para aqui alcançar e sacrificar a inominada estrela
Do teu pensamento, para cerzir a poesia mais bela!

Vagarosamente, a presença e a voz parecia esvanecer
- Porque todo poeta carrega um Olimpo dentro de si...
Última frase que ouvi, antes da rósea figura desaparecer
Deixando-me sozinho na umbrosa floresta do sonho acordado.

By: Bruno

Sílabas...

teus olhos são
duas novas sílabas,
adentrando meu vocabulário

toda linguagem
que a boca não fala
contida sob a pele

segredos meus
misturados aos teus
desejos cedem;

quero desvendar
estes silogismos da carne
e as gramáticas da alma

novos versos a dedilhar
na tua textura
inspiram nova arquitetura

dois sistemas que convergem
na luz dos teus olhos
no gosto da tua companhia
para mim, novas tecituras...

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Alinhavo


Sendo levado embora de minhas visões
Pela irreal certeza de minha inconstância
Sigo manchado em todas as instâncias
Por arrebentar sempre, a costura das ilusões 

Ao deitar, na metafísica tentativa
Da equinocial imaginação
Fito feições que me derivam 
Nos gestos gentis da ficção

Que não costuram com seu véu
A coleção de outros que me compõem 
Com múltiplas linhas e bordados, cisões,
Alinhavando outonos e invernos neste céu

Divisando-me por ruas vastas e ínvias 
Feitas de desfolhados futuros
D'onde saudades perfazem muros
Mesclando no reboque, as vigas

De pretéritos e futuros, produtos incertos
Tirados dos ponteiros da eternidade,
Solitários caminhos da vivacidade;
Sentidos a cada passo, arcaicos e hirtos

Em sesmarias de gestos, agulha e linha, bramindo, 
Desvendam o terreno de minhas mudas cores
Osso e corola, perfurados pelo espinho dos langores
Do vento, seguem este panorama canoro, definindo

Fantasias de carne e tramas de cetim
Puras e brutas, sem espaço para estratégias
Que, por mais coloridas e egrégias
Não duram até, da noite, seu inesperado fim

Mesmo assim eternizadas fincam, deveras
Memórias em minha pele, ladrilhando,
Como imagens vivas, as vidas inúmeras
Da minha imaginação reverberando...

By: Bruno

sábado, 5 de abril de 2014

Urbanidade


a cidade 
é a universidade
que educa pela vida

a cidade 
é a mocidade
treinada e demolida

a cidade
é a idade
que se recicla

a cidade 
é a eternidade
que concretiza;

a transitoriedade
que nos habita
sei lá, é nossa vida!

By: Bruno