Páginas

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Piromania

Estalando na noite clarões eufóricos
Deslumbrantes arrepios fustigavam o olhar
Rompendo a calmaria e acossando o alvorecer
Carbonando a madeira com sons meramente alegóricos

Laivando o ambiente asmático lentamente
Com pequenos coágulos histéricos
Dotando a lua de um escarlate quimérico
E engrandecendo a loucura abruptamente

Tal qual furiosos murmúrios tempestivos
É esta, a manifestação rubra de uma mania absurda
Versificada em uma revolta deliriosa e surda
Furtando-me as melancolias e os lamúrios lesivos

Os horrores das labaredas são mais doces que mel
Mesclam sua algazarra ao meu devaneio em eternos redemoinhos
Desmoronando os hipocampos em irrefutáveis pergaminhos
Construindo com esta loucura uma libertina babel

E é na flama que os sentidos tornam-se mais luminosos
Arrebatando a míriade anciã de fadas mais puras
A inocência morre neste Tejo de emoções nascituras
Tecendo inconsequentemente as ações mais aleivosas

A chaminé ornada com uma áspera liberdade
Espalha no teto macio uma floração leprosa de carbonos
O fogo é magia austera a apresentar-se para Chronos
Rompendo com a metafísica subconsciente da realidade

O fogo cujos soluços místicos apaziguam minhas endemias
Remaneja as formas iridescentes da paisagem soturna
E tenho respirado por estes anos o odor incensório desta furna
Que revira em meu âmago na forma destas manias

A combustão motivada se dá aos prantos da lenha agônica
Crepitante recordação, esta no momento da escrita
Vertendo ao espírito a vontade ilícita
De uma das minhas maldições afônicas!

By: Bruno
Chronos: Personificação do Tempo na mitologia grega, também reverenciado como Saturno.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Gabapentina

Sem nenhum sentimento definido
Um fio de água atravessa o pavimento
Ávido sem se dar conta de sua fluidez natural
Percorrendo e sempre esmaecendo a vida eternal
Bem longe do olhar do tempo e do seu acalento
Por ventura jamais por intempéries combalido

Atravessando infinda escuridade
Também pelos esgotos da cruel cidade
Inclinando a fronte sucumbida
Trai a chama morta dos olhos em contrapartida

Teu fervor ultrapassa um formidável orgasmo
Estuporando algozmente fervor e espasmo
A fala confusa e rutilante se mistura ao canto
Dos pássaros andrajos e do ar sacrossanto

Eis o ópio a ninar com olhar materno
Contendo os dilúvios de dor
Como a mãe a fecundar sonhos resguardados do inverno
Dos filhotinhos escondidos em primor
Bom eis que o pranto torna-se mármore
Enquanto desvencilhamo-nos das velhas árvores
Com o regozijo das flamas mais perversas
Dominando as trevas mais imersas.

By: Bruno

sábado, 27 de agosto de 2011

The Dark Crow Smiles

Não vi tantas vezes a luz do sol quanto queria
Nem vivi tantas manhãs quanto deveria
Mas minha pequena história é capaz de estremecer o violino mais doente
Talvez até mesmo fazer chorar o sol poente
Mas tal comoção é exagero imenso
É preciso a população viver deste ópio tão intenso?

As estações tais como o amor são adornos formosos
Dotando o tempo de uma dolência e sabores brumosos
Porém como cosmopolita jamais desfrutei destes panoramas orvalhados
Mesmo assim meu imaginário acomete-me com estas visões aprimoradas

Impressiono-me como a vida pode ser tão inflamada de luz
Mas me contento com o alvor dos meus dias velados
Porquanto outros abobam-se dócilmente com seus peitos costurados
Apenas o verso copioso, o fulgor meloso e a ode mais ignota, aos meus lamúrios fazem juz!

Toda a vida contorna-se em um fabuloso plano
Recuso a ideia de perdurar por longínquos anos
Edifico-me e suspendo-me através destes versos nada soberanos
E por fim toda corda arrebenta, deixando cair mais um corpo humano!

Os oceanos que se apresentariam pacíficos
Hão de fazer isto apenas em nome do meu espírito
Posto que meu corpo já consumido adormece sob os prantos
Erguem-se nas mentes ofuscadas fortalezas que agem como mantos

Contrapor-se a vida certamente é bastante insolente
Segue-se um desapontamento, pois não hei de resvalecer impressões
Como interpretarão furiosamente as multidões
Rastejando por entre suas insatisfações da carne espiritual, rudemente

Naquele monstro adormecido há um anjo que aflora
Confirmando os azuis inalcansáveis e uma inacessível aurora
Que despertarão mais brilhantes com minha partida
Não mais enevoados por esta mente sofrida

Pureza e sensibilidade são belezas extraordinárias
Pobre alma minha derribada em sonho e paroxismo
Profundamente atraída para o abismo
Preso numa constante loucura e infindável amargura, ambas mortuárias

Há tanta coisa para ler
Há sim o mundo todo para ver
Mas já os perdi de modo a jamais achar
Tais coisas que meus imaturos olhos jamais poderão contemplar

E que dizer do amor? Gracioso e sepulcral
Tinge inadequadamente este coração espectral
Caduco, poeirento e viscoso, ordena-me a escrever
E numa gaveta rústica, guardar e esquecer

Não quero jamais ocultar meu ser da universal memória
Porém também não quero fazer parte de qualquer oratória
Escrevo tais pestilências por medo do esquecimento eterno
Posto que guardo em mim o odor do tempo e memórias do luar mais terno!

By: Bruno

sábado, 20 de agosto de 2011

Vox Arcana

Recordamos com muita ironia
A gramática querida e sua serventia
Resolvemos mudar em data patética
E é incondicionalmente uma forma herética
De devotar nosso aprendizado aos poetas
A desonraria que hoje nos abjeta

Beijamos a sonsa matéria
Ofendemos o papel com protótipos errôneos
Mascarados com feixes de luz cinéreos
Apenas ofertando a inorgânica abundância de miséria

E como um vassalo parasita
Retiramos nossa individualidade saudosa
Tais vocábulos um dia abençoados por Vinícius de forma airosa
Que dirá Drummond com sua ode infinita?

Partilhando a ignota semelhança, os pseudoportugueses
Não mais se utilizam de hífens e alguns acentos
O que faz de nós poetas; antigos neologistas sem alçamentos
Minha indignação prova que não somos da ortografia meros fregueses

Estou pleno do medo que me dei
Meu coração não se iluminaria por mudanças ditas fúteis
Continuo o mesmo poeta e com os vinhos me deleitei
De forma queimante a gramática digitalizada me traga com pérolas inúteis

A sânie ulcerosa da nova liberdade de expressão
Porá tudo em bordéis desenhados à moda modernista
Enquanto Satâ Trimegisto* opera como nosso grande maquinista
O trem que borda seus trilhos através de ígnea alusão
Ao inferno na Terra desenhado por nossos lamentos blásfemos!

Bom tenho a graça de terminar isto de forma a grunhir
Os improprérios ébrios que fulguram minhas entranhas
Como um anjo que risca o céu, por entre montanhas
Procurando a volúpia ideal, um festim verdadeiramente demoníaco
Sem precisar das formosas letras que um dia para nós formaram um Éden paradisíaco!

Je ne sais pas ou c'est incroyable
O fato de ser errante ou acadêmico
Ce n'est pas possible
Uma vez evidente que não sou bom anjo e nem bom humano!

By: Bruno

Satã Trimegisto: Cognome do Deus Grego Hemes, que os Gregos davam também ao Deus egípcio Tot. Trigmegistos (Grego Tri: Três vezes e Megistos; Máximo)
Máximo como sacerdote, como profeta e Rei. Citado inicialmente na obra de Baudelaire; As flores do Mal.

Ossos

A salvo dentro do meu maquinário
Olho inconsolável a um horror descomedido
Que esmaga a tricúspide, pasmado ou arrependido
Não sei qual reação escolher, neste encantado cenário

Aquilo apresenta-se com uma rudeza voluptosa
Galgando o chão, a arrastar e comprimir
As trevas mais hediondas prontas a emergir
Deste debochado holocausto de forma tão horrorosa

Estratégicamente posicionado nos portões do cemitério
A penosa agonia da carne putrefata e viscosa
Banhando alma por alma de forma tão enojosa
Alastra o império negro sem critério

Ao léu do vento as feitiçarias seguem provocando
Atiçando vorazmente as almas vivas, sob o túrgido olhar, admirando
A pureza de Balder* presente na mocidade lânguida

Até as límpidas estrelas assombram-se
O mal que se farta é tamanho para pouco cemitério
As aranhas sonolentas também apiedam-se

Imaginem o susto do coveiro, a surpresa do lixeiro
Ao encontrar tal situação inusitada
Quantas ave-marias, quantas novenas não rezarão estes não feiticeiros?

*Balder - Deusa da mitologia nórdica, filha de Odin e Frigga, portadora de grande pureza e bondade.

By: Bruno

Juro que é uma cena verídica, curiosamente colocada lá uma carcaça com grandes ossos, na porta do cemitério do meu bairro...


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Uma Mão

Entre o lençol há uma mão que eu amo
Eu não a vejo, mas sinto aqueles cinco dedos espalmados
Aquela transmissão de calor em minhas costas
Ah como eu amo aquela mão por entre os lençóis!

Um tanto áspera mas ainda sim amaciada pelo meu coração
Carrega uma ternura dolente, uma alma doce
Uma mão que sabia o meu nome, que cumprimentava
E que eu sonhava até não pertencer mais a um corpo

Os raios crepusculares enumeram-se em torno desta mão
A fazem sensível à claridade, ao dia que não queria amanhecer
Perder-se entre o cotidiano atormentado e sem sentido
Sem tempo para resguardar aquela paz pequena e desejada da manhã

O coração embriagado passeia neste relance ilusório
No côncavo daquela mão uma estrelinha me encanta
Hipnotiza meus conturbados sentidos com uns doces arrepios
Arritmias, taquicardias, paradas respiratórias, frutos deste romance embaraçado

Minhas noites de agosto todavia, são solitárias e sóbrias
Sem a presença desses líquidos minha mente é enorme remendo sonhador
Seguindo a fio por ramagens outonais em pleno inverno
Desapercebendo o despertar fosfóreo dos pássaros à minha janela
E os voos orgulhosos das libélulas soltas ao imaginário ardente

Mas tudo se resume àquela mão, imaginada, sonhada
Arrebatada por ondas langorosas e sazonais
Desmanchando sob a realidade nefasta
Que põe crianças tristes e agachadas a sonhar muito alto por tão pouco...

By: Bruno

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Poesia da manhã

O branco centenário das flores tingem a imaginação aguçada
Inúmeros rostos são vistos no franzir desta manhã
As linhas descompõem-se materializando estes vocábulos
A palidez dá lugar ao rubor, quando comunicam-se comigo
É tão vital e tão embaraçoso
Coloco grosseiramente as mãos dentro do casaco incerto
Paralíticamente as palavras fogem da minha boca
Não pensarei em mais nada sequer!
Quero apenas deixar o vento banhar a minha cabeça
E assim sonhar livre acordado ou dormindo, tanto faz
Apenas embarcando em poesia numa sala de aula
Ou num restaurante ou dentro de uma garrafa
E até mesmo dentro do baço e na fumaça de um cigarro
Uma poesia numa manhã lenta e avessa!

By: Bruno

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

The Waltz of Illusions and Loneliness

Se me exagero em tuas mãos que esculpem meus sonhos
É culpa das suas provocações
Adocicando cada amargor, lá se vão meus momentos tristonhos
Seria culpa da sua beleza, não, longe destas abstrações!

Minha visão narcisística obstrui as portas do paraíso
Obceco-me com visões de anjos que são manequins desvairados
Imploro que encham-me com suas paixões inanimadas
Criptografando em minha alma, uma mortalha de prejuízo

Cante, cante só para mim a melodia que me embarca
Embarca numa viagem ébria por todos os mares longínquos
Utilizando uma nau fantasma acompanhado do tilitar contínuo
Bebo, bebo enquanto cantas a melodia funesta que na morte me remarca!

Seus olhos são repletos de uma impureza tão doce e corruptora
Você difamou minha alma pura com suas mãos e lábios
Mesmo que eu seja um pequeno vulto inerte diante dos seus gestos sábios
Televisivamente, oníricamente, inconscientemente, entrelaçando-se à minha mente usurpadora!

Num dolente caminho minha mente exercita sua atrocidade
Sou repleto como as nuvens que se espalham sem receio
Ilusões, materializações vãs e contaminadas, transmigram entre meu anseio
Mas por fim sei que sou apenas um corpo gélido, sem rastros de suavidade!

By: Bruno

domingo, 7 de agosto de 2011

A rosa

A rosa lança-se ao chão ansiosa pela próxima vida
Seus espinhos elevam-se como um arrepio por todo meu corpo
Ela sonha com a auto-destruição com um sorriso envergonhado
Tão solitária e tão vermelha quanto o por do sol
Os pássaros continuam cantando neste fluxo sem fim
O que eles cantam?
Pode receber a carta que não ousei enviar?
Posso transmitir a confissão que não ousei fazer?
O tempo passará e esta rosa desaparecerá
Exatamente como as sombras que prometeram sempre se desviar dos raios de sol
A grama beija os pequenos passos cansados que dou
Em rumo a uma longa espera no meio de um sonho de verão
Eu realmente espero alguma reação do seu coração
Ao ler tão débeis palavras como as minhas
Palavras que almejam este sonho tão profundo com você
Até se desgastarem como folhas outonais
E despertarem ofuscadamente pela luz da manhã mais brilhante
Com o último suspiro da minha alma
Eu quero te encontrar esperando por mim.

By: Bruno

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Le Bleu de Tes Yeux

Se me lembro bem, quando o sol das manhãs invadia meus delírios
Era quase perfeito, azul e vermelho nadavam juntos porém distantes
Não importava, os poucos outonos, os poucos invernos me eram muito marcantes
E nem mesmo uma grande geada fazia mal aos meus pequenos lírios

Os ecos de felicidade que me eram despejados a cada dia
Nem imaginavam os desesperos que me aguardavam ansiosos
As ilusões disfarçavam o sofrimento confinado de um coração ocioso
Uma admiração tão obcessiva que até sua ausência se tornava minha compania

As folhas levadas pela ventania denunciavam duas vidas tão separadas
Unidas por um único devaneio sorridente e amoroso
Mas o destino sabe ser gentilmente tenebroso
Um monastério arquitetado de visões surreais de certo modo amaldiçoadas

Eu navegava por rios impassíveis
Sempre me sentindo guiado pelo azul dos teus olhos
Sempre por invernos à deriva e como um burburinho as emoções em molho!
Os amores sempre me foram os transtornos triunfantes mais impossíveis

As consequências de prolongar e conter estas loucuras fermentadas
Fragmentando uma aurora exaltada dentro da minha fibrose cardíaca
Criando em meu ente uma ressaca rutilante e maníaca
Iluminando meus gritos e dores escaldantes por primeira vez visitadas

Sonhei por meses a fio te abrigando a bordo dos meus desejos oníricos
Os sóis de prata naufragavam no oceano que eram os olhos teus
Mas o que mais doía era o esmagador acordar, um desavisado adeus
E meus dedos se desgarravam da sua mão quente, mesmo nem sendo um fato empírico!

Sigo apagando os traços de um barco de algodão
Ah como o amor é uma grande conspiração
Mesmo atualmente ainda me sinto imerso no seu langor
Suas ondas remetem ao passado e a um futuro crepuscular e agressor!

O sol por vezes é tão amargo e a lua tão ébria quando se mascaram
Deslizando por troncos podres os vinhos amparam
Certamente amparam ao poeta, mas as feridas nunca saram
Nem as visões daqueles olhos cessam
Mesmo que eu me apaixone de novo e de novo...

By: Bruno

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Pensamentos enterrados no luar

Abaixo das nuvens escuras aconteceu um encontro
Um amor não concretizado que suspira sangue
Sob a ótica sazonal é intensificado nestes mesmos dias nublados
As lágrimas a escorrer são esquecidas pelos fios do destino
A brancura assume diversas cores em meio aos pensamentos em chamas
Que jamais esquecem, jamais perdoam uma timidez atroz
De olhos fechados enquanto a vida passa transitoriamente
Eu espero pelo dia em que transmitirei adequadamente estas emoções
Em outro mundo em uma época jamais imaginada ou vivida
O alvorecer está se aproximando a medida que as estrelas se distanciam
Cartas realmente serão necessárias antes do grande sono?
Letras flutuam sob o vento dos muitos anos não aproveitados que lavam os aromas que sinto
Agitando os sinos imaginariamente ébrios deste inverno final
Os raios de sol jorram estórias espiraladas de esperança
Que ao meu ver são de desespero, uma ânsia transformada em otimismo falso
Porém voltando à memória, esta tem um brilho efêmero a percorrer minha mente
Seu toque e aparência preciosos até empalidecem poucamente os cântigos sombrios
Queria fixar o seu riso ao meu sonho de forma a contornar a lua minguante
De forma a tornar a solidão estreita aos meus olhos e esquecer todo o massacrante ódio!
Ao brincar de semear os poucos momentos corajosos
Os deuses podiam lacrimejar um final feliz a mim
Mesmo que meu espírito dissolva-se no sal dessa lágrima
Eu teria você por um transiente momento
Seguiremos puramente na paisagem iluminada
Sob o orvalho glorificado das flores vibrantes
Certamente eu viraria as costas para a corrupção taciturna que me assola
Porque eu teria encontrado o fim que desejo.

By: Bruno

Neusa



Neusa é personagem real? Neusa está no caderno incompleto, está no devaneio de indigente de vários nomes, está em nossas mentes, está no mundo! E estar no mundo a faz ter papel no tear entremeado dos nossos destinos. Neusa é por vezes apenas Neusa e por vezes funcionária assalariada, tem dúvidas e medos e até coragem.
Neusa nem sabe o que pensar, confusa e confundindo, elevada e rebaixada, musicada e poetizada, cosmopolita e isolada, pela casa e pelo indigente que a cobre com suas palavras ambíguas e insolentes. O indigente no fim era portador de todos estes saberes e falava em vão sobre quem era a surpreendente Neusa!

By: Bruno