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terça-feira, 3 de julho de 2018

O que é um soneto?


O que é um soneto, senão parte riso
E parte da lágrima que compartilho:
O instante em que a chuva nos tinge,
Sabiá com trevas e mistério de esfinge?

O momento do abraço ou do beijo,
Carinho que viaja neste proibido Tejo,
É forma presente ou já esquecida?
Qual seu sentido - Métrico ou lúdico?

Vaso chinês ou porcelanato floral?
Cadência de estrelas, rã no regato,
Vernáculos em escrita escultural?

A surpresa do verso é nunca saber
Se advém de inspirado aprender,
Ou calculado e esmerado aparato!

Bruno Borin

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Utopia


Bem queria ser a novidade insurgente:
Ineditude a estourar bem inocente,
Um soneto que rimasse um pós-tudo:
Mas estou aqui, arcaico, meio fulvo!

Delirando um sentido de além, sumido, 
Desafinado e furtivo, tal a modernidade:
Ambiguidade dragonesa, signo postiço;
Liquefeita e imperfeita essa verbosidade!

Queria escrever meu poema, sem lendas
Atual e político, que se fizesse gramatura
Solta, pulsante, mas não é por estas sendas

Que meu espírito deambula longe, irriquieto!
Amálgama rubra de mitos, segredos e agrura:
Perpétuo templo ou antigo copo de cianeto...

Bruno Borin

Afogamento


Mergulho

Nas funduras

Obscuras do meu ser

Para obter a mais pura luz



Singro as ondas

Revoltosas

Das emoções escondidas

Metade dívida

Metade treva

Muralha de espelhos

Postigo dos desejos



Como nuvens de fogo

No céu do meu delírio

A dor dos calendários

Confronta a lisura do papel

Beirando a lágrima do meu ser



Humana ideia de mim

Que sou só esboço

Barco bordado

No tear desconhecido...

 Bruno Borin

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Canção do errante


A vida é variavel assim como o Euripo.
Apollinaire

I

Cruzando a ponte febril de nuvens
Me espargi como um rio no oceano
E como lembranças a flutuar, surge
A vida, em cartas de um baralho decano

Nas ruas sem número do meu epicentro
O sol dos dias brilha dilacerado, tentando
As cavalarias alcoolicas que, trotando
A esmo, fiscalizam os proclamados remendos

Em vagas faces, de sombras vivazes compondo
O cipreste oloroso e destituido de sentido;
Um monumento profano é soerguido 
No lugar de uma proscita ruína sem rosto!

Enquanto dançáveis melodias variavam
Ditando os passos a serem dados
Esqueci dos comprados alambrados 
Em um padecer que os céus me alijavam...

II

Não sei o que é mais fugaz, 
Se é a vida a nos entoar
- A final canção 
Ou o coração a ditar
- A feroz paixão! 

Em mãos de outono, se perdem
Os signos colhidos do junco
As queixas de verão cedem
Ao corado sumo
E acordes bailam nos yeah yeahs da vida.

Morrem muitos cantos, muitas melodias
As portas batem sorrindo terrivelmente
O amor dura um lapso de segundo
O tempo de uma visão subliminar
Ser esquecida, mas uma eternidade
Para ser posto de lado como uma memória
Vazia.

Feias são as beatitudes, senão compostas
De sonhos honestos e romances perdidos
Do sangue dos deuses que se compõem
As artes que ferem a alma dos astros
E revelam a mentira das estrelas.

Eu me eternizarei sob o espinhal em flores
Recuso a tenra grama e os campos lilases
Do verbo quero o ritmo da existência
a bradar cem anos de consolo para uma dor
Que não se alcança.


III

Meu revelar é também um esconder.
Bruno Borin

Precisando de favos de azul
Vestido de incompletudes 
E sentindo que perdi my soul
Reconheço essa tal solitude

No desamparado castigo 
Nas próprias condolências
Acho as profundas essências 
Do meu antigo postigo!

Distanciando do matiz verde
Segmentado em res urbana
Componho minha verve
Do intransponível engano;

Desejando o purpúreo lupanar
Das ideias fátuas e merencórias;
Proclamei sem dolo um pressagiar
Instaurando o ritmo destas rapsódias

Nos verbos de ação mais fantasiosa
Para mendigar cores que nunca tive
E não absconsar na mesmice,
Perdendo minha mocidade preciosa...

Bruno Borin

Soneto do dormir junto


                                 - À João V.

Dedilho em seu ventre
A descoberta do amor,
Muitos mistérios entre
Os cânticos de clamor

E as vidas que nos juntam,
Na roda da fortuna, a girar,
Tão novas melodias a cantar,
As razões que nos caminham!

Um soneto não há de resumir
O que há tanto tenho sentido!
Mas em meu singelo bramido:

Expresso o que vêm remexido;
A cada acorde que se põe a luzir
A vidinha de amor a se conduzir...

Bruno Borin

Quadro negro


                                       - Aos amores passados

Na noite riscada de giz
Encharco minha vida
Descuidado com o verniz,
Perdido na grande avenida

Entre tanto sentir, todas as cores
Estavam soltas ao chão, diluídas
A que escolhi: Só trouxe dores,
E meu medo leva à estas cálidas

Telas, que têm a tua tinta
Em meus rascunhos de amor
A lapidar em bela escrita
Algo entre fantasia e dissabor

Tanto poderia desabrochar
O caminho por ti escolhido: 
Foi mais abrupto desmanchar,
Restou colher da falta de sentido

Expectativas quebradas, em rastilho
Se enveredando pelas raízes do sentir
E a primavera, febre, frágil ao bramir
Não deteve seu florir, castigado brilho.

Lábios assinalaram desejo de infinito
Jamais imaginando este durar mais
Que moucos segundos, manuscritos,
Tão perdidos quanto cingidos de gris...

Bruno Borin

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Agrypnia


Em formas turvas, tentaculares 
Estranhos entes de sonhos cruéis
Manifestam-se em terríveis dosséis
Ao concretizarem os meus azares!

A luz verte em ignóbil aura trevosa
E olhos fosfosrecentes me devoram
E eu navego nesta turba horrorosa
De onde as insônias que apavoram,

Nascem em noctívago, vital anelo  
Uma Eterna noite, que mataria mil sóis
E me trancaria em goticismo flagelo:

Aristocrática a sinfonia do pesar:
É Solitude da mente mouca de heróis
Verbos que libertariam do fantasiar.

Bruno Borin

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Derrota


A aprendizagem que me deram? Eu desci dela pela janela das traseiras da casa
- Álvaro de Campos - Tabacaria


Perdido em pequenos timbres de ouro
Navego no sonho com um luar errado
Eu sou o que falta na paisagem cristal
- Amontoado de vértices em verso branco
Onde singra rubro, o tropel das vibrações 
Em ritmos iriados como mandamentos...

Ó luar errado, queria acreditar  na ciência cosmopolita dos signos
 - Mas esse cansaço, como uma súbita e inexplicável ternura
Bruma o meu entendimento desgraciosamente!
E como num grande espelho quadrangular, vejo-me
Sentado a sorver o pior da humanidade, e um punhado de @@@@

Que vértices cegantes! Que calor desumano! 
Caiu um prédio na minha vida! Ninguém nem reclamou!
Eu só lembrei de baloiçar o pasmo de minha alma
Estirar uns tapetes para mais um assombro, como outros que receberei!
Mas o que sempre quis era vomitar a minha própria carne
E ver o Jaquaribe da minha vida escorrendo pela calçada

Que erro, eu nunca mais me imaginei enroscado nas serpentes do sentir
Mas estavam lá todas as mambas, Álvaro estava certo o tempo todo!
O Cansaço desbota os cetins do nosso espírito...
Ainda lembro das minhas garras de marfim e do sonho branco
Que me levavam para um êxtase infantil e prateado
Um Lord reduzido a imagens e montras com a minha dor estampada!

Hoje choram em mim cores perdidas, rimas rejeitadas
Todo um estilo de ouro esquecido, arrancado de memórias tristes
Dos poetas de outrora, gente desquitada da vida
Gente que queria virar gramaturas cansadas e arfantes
Acordes de uma Paris ainda viva e cintilante,
A latejar cristalizações enevoadas e difusas, e um cansaço
Um espasmo cardíaco que dói mais na alma que no corpo
´
Ó lua errado, me desculpe! Não tenho rituais a oferecer
Porque não há nada que possa fazer pelo Tehom do meu Vocabulário!
Veja, toda essa beleza inatingível... Não é para mim!
Eu que sou um punhado de cordas partidas 
Queria atapetar uma escada, apenas para rolar nela o meu corpo torcido
Porque mesmo se levantasse da cadeira e vivesse
A Beleza passaria por mim, mas eu jamais me tornaria a Beleza...

Bruno Borin

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Derrubada


Ah saudoso Jaguaribe, Rio de minha vida 
Águas imaginárias em que nadei...
Águas em que correm a força de Tupã
O sangue do trovão sem tempestade!

Queria ver-te mais uma vez cirandando, 
Sem o progresso da civilização 
Arco e flecha sem rumo de morte
A pureza livre de um verso inocente!

Dançam nas cordas o hiato das eras
Yamandú catequizado reza o terço
Empurrando as nuvens do céu 
Para dar sol às tíbías Caapongas 
Botões de cura em tempos negros...

Mistérios da língua Tupi, caraguatá
Para quem sabe da chaga e do luto,
Mitos que morrem entre balas e anúncios 
Mata derrubada, Adeus Poti...
Iracema é morta!
Rubra cor pinta as margens
Do saudoso Jaguaribe...

Bruno Borin

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Da pulcritude


Meu amor, quantos abraços me deste?
Navegando em azul oceano, sua luz,
Tão estimada! Foi meu grandioso leste;
Contra o destino traçado, nada opus! 

Contra mares avessos singrei corajoso
Tendo seu ideal como coloridas velas.
O "preparo do céu" se fazia bem jocoso;
A tormenta não abalaria as Caravelas!

Mas segui avulso ao país desconhecido,
Içei velas aos quatro ventos da inspiração;
Ao seu mundo adentrei e hoje, unido,

Persigo as ramagens etéreas da criação,
Onde a pulcritude ramifica absoluta;
Os gestos de amor são mais que conduta!

Bruno Borin