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quinta-feira, 7 de junho de 2012

O desabrochar da flor, o desembainhar do destino.

Capítulo 1 - Início da fatalidade.


  É neve. Eu imagino neve neste conto japonês narrado embaixo da cerejeira. Perdoe-me o atrevimento, ó espírito que se indaga sobre a veracidade da minha ambição.  Em uma época cheia de youkais, antes dos trens e antes de qualquer sentimento de revolução, na pequena casa à mercê dos cupins e dos percevejos sem educação, uma menina cravava uma espada muito mais pesada que ela no chão.  E eu aqui, embaixo da cerejeira imaginada, me pergunto o seu tão escondido por que. E olhando para as manchas de sangue da espada, que acompanhavam as manchas de seu quimono bege claro, pode-se ouvir muito bem o bater das lâminas em um combate vicioso. Podem-se ouvir também os ventos de desespero de um coração temeroso pela própria vida, mas ainda com toda disposição para realizar a vingança.
   Suas lágrimas como pedras caíam conforme suas mãos forçavam a terra engolir sua lâmina, eram muitas memórias terríveis para um coração tão pequeno e inexperiente. Era também sofrimento em demasia para uma alma tão jovem e tão morta.
   Decidida e de rosto limpo das lágrimas, deixa aquela casa e aquela espada com um fato tão monstruoso para trás, excomungada pelo sangue derramado, solta num mundo cujas engrenagens se lubrificam com o suor dos camponeses e dos samurais. E em meio a neve, vagando ainda sem rumo por ruas que acumularam sua infância pura, depara-se com um trovador tradicional, cantando uma ode tão, tão familiar, que seu coração se comprimiu em seu peito como a chama de uma vela se comprime quando seu oxigênio se extingue. Desesperada, corre para que suas lágrimas não caiam ao som daquele grito fastio.
  Quando finalmente longe daquela cidade, daquelas pessoas, daquele canto e principalmente daquelas memórias, as copas das árvores lhe jogavam uma honesta sombra. O tronco de um paciente pinheiro resguardava ali, um lugar para se sentar e pensar. Foi o que nossa pequena amaldiçoada fez, sentou-se e aos goles de sua pouca reserva de água, pôs se a pensar. O que faria agora, sem destino certo, sem dinheiro em mãos, apenas com uma pouca variedade de coisas que carregava em sua trouxa? Para constituir o pequeno punhado de sorte que os deuses esmolavam àqueles que se vingam com espadas samurais, ela trazia consigo uma biwa sem verniz e sem qualquer decoração específica, apenas uma mancha pequena na lateral. Se sabia tocar, descobriremos quando ela se atrever a exibir as coisas aprendidas com sua avó, uma possível mestra nas artes líricas tradicionais. Mas eu me pergunto aqui, com meu copo de cerveja européia em torno dos ventos que carregam as pétalas, o que ela cantaria?
  Que coisas retrataria em suas letras improvisadas? Sabemos que não se podem dissociar os que cantam essas coisas de suas produções, já que é no improviso do pulsar do sangue que são compostas tais melodias. Enfim, as tímidas folhas do pinheiro são forçadas a acompanhar seus primeiros ensaios, testemunhas do aquecimento daquela jovem e rouca voz que tentava, apenas tentava encaixar seus primeiros tons musicais. O que será que movia suas melodias?

O que acharam? Comentem pessoal! 

Um comentário:

  1. Interessante esta tua exploração de temática nipônica e folclórica, soou bem universal e contemporânea, gostei bastante, a sua expressão poética e lirismo esteve bem evidente neste conto, muito bom,

    um cordial abraço.

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