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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Lapso Matutino


Olhando fixamente os desenhos do azulejo
Desapego-me dos oceanos de lamento
Dos quais desembocam o meu Tejo
Aos sons de um violino bem lento.

Sem atinar qualquer razão, vai envelhecendo
Toda a vida, bem como todos os versos
Numa sinistra lucidez, constituída de padrões irreversos
Fustigando os lestes da existência conforme a vida vai acontecendo.

E por mais que as estrelas refutem suas condições atemporais 
Nossas filosofias e religiões, também ditas como imortais
Não passam de piadas derramadas na essência dos viventes
( — Em suas absortas concepções estelares.)
O amor ainda assombra-se com a ausência de pureza
Deste contemporâneo, eis pleno o século da clareza.

E então, reconhecendo diversas figuras nos traços de água
Que escorrem nos relevos dos mesmos azulejos 
Reconheço-me como um escravo cardíaco dos lampejos
Astrais das estrelas; das cantigas das infinitudes opacas.

Ratifico a deliriosa certeza dos sonhos grandiosos
Deito as letras rápidas nestes versos como que invocando
A magia austera das vitrines, das praças, das ruas arborizadas

Como quem segue à risca um contrato oneroso
Sem ter devidamente acordado verbalizando
— Nada se seguiu de forma planejada.

E há quem tente especular, sobre as arribações do tempo
Inaugurando cemitérios, propagando o mistério mais sombrio
E questionando o ócio necessário da poética, que contraria
Os esforços de sobrevivência dos que apenas vagam como o vento.

( — E é este pensar que as estrelas compreendem por blasfêmia!
Porquê, certos questionamentos inevitáveis, certas mnêmias
Remotas, são fatais aos olhos!)

E então o esverdeado do azulejo me remete ao vício absíntico
De ter todas as flamas, todas as tempestades, arraigadas  
Em minha pequena essência de menino, e então cerro as pupilas castigadas
Por lágrimas que caem no sensitivo momento em que cai sobre mim o entoar cáustico,
De toda merencória tragetória do mundo e me confirma: 
Sou só um menino fitando distraídamente o azulejo.

By: Bruno

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