quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Elucidação


Peguei do meu coração atado
E pelos vagões da memória o levei
Até que, no instante inexato
Da tênue desmedida, o depurei;

O depurei das ecoantes solidões
Que lavam de presenças encrustadas,
A alma da gente, vertida e ignorada,
Com dolorosas e pacientes emulsificações.

E pensando nas dolentes significações
Fico suspenso nas promessas que cometi
E que ao decorrer do endurecer, inadimpli
Percebendo o quanto cedi das próprias proporções.

Trancado, junto aos poemas que jamais escrevi
Pairava em mil sóis tão salobros, que o código
Que eu portava tão inconsequente e pródigo
Em profuso palor se verteu, raptando tudo quanto vivi

Me apartando da fluidez do tempo e espaço
À maneira da metáfora mais vívida, a vida mais baça,
Mesmo sem ponta solta, amortecia minha queda
Que era como mergulhar na interior alameda

E debruçando inocente, sobre mim mesmo; 
Tomando o papel principal do espetáculo
Jamais incutia o primogênito receptáculo
Da vida que eu levava a um certo esmo

Pensando ser normal ter os horizontes desbotados
E carregar culpas mais brilhantes que as estrelas
Deixando que elas falassem em nome das minhas trevas
Que, escancionadas já se apresentavam desbravadas...

O que fazer com tanta vida? - Hoje me pergunto
Quando realmente "não posso" - A tudo avulso,
Comungar da beleza, os sonhos e a sabedoria
Trazendo à minha vida, o que há de mais livre, a alegoria...

Bruno Borin

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Promessas


Tantos mundos prometidos
Permeiam os desejos repetidos
Por horas, os quereres infindos
Assumem discursos tão lindos

E contra estes apenas o peito
Contraído, como se se doesse,
Condoído pelo inquirir estreito
E com receio, como se se perdesse,

Não sei se por retórica ou inanição
Me cai como a Sísifo caiu, em rolamento
A vontade de fuga ou a mera inação;
E a penha como elevado arrebatamento

Com o mesmo teor que não enlaço
Minhas pequenas certezas, 
As minhas ousadas transcendências
Se devem ao suspiroso embaraço

Quisera eu ser de Olás tanto 
quanto sou de Despedidas...
Quisera eu ter a rebeldia 
de quem muito amou 
e juntou as mãos atrevidas...

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Transver


À luz do vinho
é céu ou delírio, aquilo
Que, feito linho

Risca o pergaminho
Do meu destino
Feito um raminho

Que pulsa, hirto
Em tortas ramagens 
Tecendo mortas tatuagens

Amorfas, tal fátuo
Lume, o da inspiração
Que jamais respalda a respiração.

À luz do vinho
É no céu do meu delírio, que avisto
O verso do meu caminho.

Bruno Borin

Lapsos


Tão denso é o ritmo da vida
Que nem percebemos os batimentos
Dessa lépida desmedida

Mouco tempo para tantas cores;
O mero decifrar dos acontecimentos
Nem arrefece o denso ramalhete de dores

Transbordante é o caminho de se ir embora
E o ranço de olhar a não-volta que faço
E constatar a conspiração em que me embaraço

Sei os gestos todos, sei das certas maneiras
Mas não sei se meu próprio cansaço
Pulsaria contra todas estas vagas e faceiras

Formas embevecidas das muitas maldições 
Que digo carregar, e que dizem me levar
Sejam elas reais, ou somente invenções...

Bruno Borin

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Trancado


Quando foi que girei as fechaduras
E me tranquei dentro de tantos outros
Estes tantos quartos sutilmente salobros
Com suas escuridões tão, tão duras...

Tão escuro, tão firme, quanto presente
Este Outro: pés, mãos e rostos indispostos
Que fito perplexo: Olhos que não me sentem 
E Sou tão sólido quanto meus suspirosos 

Eus, que também são Outros, pedaços
Extraviados, feitos de pano tão garboso
Que na tentativa de me descobrir, ouso,

Mesmo temendo o material, com baços
Tateares, sentir o frio que em verdade
Era meu antes mesmo de ter multiplicidade!

Bruno Borin

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Embora cair seja a regra do novo mundo...


Me visto de outono
Para colher os estranhos buquês
Que nascem no solo do meu espírito...

Mesmo em estiagem
O choro é o regar;
O chover, o reger 
Da sonhada orquestra

Raízes alastram-se agradecidas
Folhas zombam penduradas
Meneando uma dor
Que nem anjo caído entende

Mesmo em estiagem
A lágrima é o pulsar
E o orvalho, o manchar
Dessa eterna festa

A estalar nos fragmentos 
De meu interior propenso
À intensidades errantes
E à calamidades itinerantes

Ora ermo, ora aurora
Procuro, desarranjado
O que fui outrora...

Bruno Borin

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O suficiente


Um punhado de luz e um pouco de trevas
É tudo que se espera em um canto escuro
E é tudo que se guarda na salobra penumbra
Onde dualidades se encontram mas não se chocam
Ao me encolher, me resumo
Querendo do muito que somos, um pouco

O suficiente para ser eu, encolhido 
Em um canto do quarto
Como um punhado de palavras
Soletradas em um rascunho esquecido

Áridas, as horas me adentram o ouvido
Perpetrando a minha condição de recolhido
Entre tantas audácias, nenhuma requerida agora
Entenderia a maior delas, - a cáustica ideia
Que me dilacera feito o deglutir de um velho vinho 

Quebrar minhas imagens - E viver de meus segredos
Ou deixa-los, sombras contra as paredes
Escoar em verso livre, no dedilhado corredio
Do calar-se...

Bruno Borin

sábado, 18 de outubro de 2014

Do muito que me tenho perguntado


Que constelações busco eu, no céu do meu devaneio?
Que intempéries chovo eu no horizonte da minha vida?
Se nas siderações em que perco meus rostos, não há enleio
E as nublações não forem mais do que a remessa prometida

Das lágrimas que não consigo guardar por meramente, 
Delas escoar os bramidos de uma resistência vencida;
Que ao se manter, pródiga, consome tudo o que sente,
E ao se confrontar, encontra a alma adornadamente arrefecida?

Embora não mais saiba onde estão as românticas alvoradas
Os meus sóis, ao arderem em flavas flamas, demonstram-me
Caminhos remansosos como o curso de fantásticos orbes
A rumar por calmas feições, no esboroar das velhas queimadas

Deixam-me à deriva das próprias florações, paisagens
Tão finitas quanto a própria brevidade do sentir,
Até que o urgir do real decisivo, e seu pesado pungir
Exigir de mim o farfalhar da troca das obtusas folhagens
Demandando um cruzar além dos interiores oceanos,
Fronteiras proibidas, conciliadas com as novas ramagens...

Bruno Borin

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O grito das fúrias


Com a alma prostrada em preocupações
Deleito-me com o grito da Fúria
Composta de toda a infame centúria 
Das pequenas e acumuladas incomodações

De mansa quietude, a Natureza
Flui em cascata, para densa melancolia,
Urdindo as corrupções da incerteza,
Propagadas nesta incólume ventania

Dos frutos destes estranhos sentimentos
Não consigo decifrar, sob os olhos rancorosos
Destas Fúrias de rapina, o paladar rançoso

Das rupturas momentâneas dos meus sacramentos,
Tingidos com a cor destes gritos pavorosos
E com o timbre da alma desconsolada e ruidosa! 

Bruno Borin

domingo, 5 de outubro de 2014

Por amor

Um soneto, apenas um soneto
É o que queria muito fazer
Antes de por amor, fenecer...
Qualquer que seja, o  poemeto 

Não seria por vaga razão;
Meu complicado bulir
Jamais deixaria o afoito palir
Dizer por si a maga abrasão

Seja por não remeter a alguém
Ou por vários deuses louvar,
Sei que o que não tento contar

É meu passado ou meu conjecturar
Futuro, com tantas coisas a vivenciar
Mesmo ainda com palavras a remontar...

Bruno Borin