segunda-feira, 16 de março de 2015

Metapoema

À procura de um Metapoema
Que se desfaça no intento
De falar sobre qualquer tema;
E nele me esconder, invento,

Qualquer frêmito de existência,
Para nele viver um pouco mais
E ver a fagulha das verves adrenais;
Esta opaca fagulha de permanência

Com ou sem o peso dos passados.
- Enxergar com o coração muita vez,
É tarefa envolta em vícios represados,

E Compreender desses Plátanos 
Seu dialeto, requer a desfaçatez
De abalizar os copiosos desenganos.

Bruno Borin

segunda-feira, 9 de março de 2015

Hemorragia

Confronto o sonho e sua litania,
Encontro um eco nesta travessia,
Não sei se de, tonitruante voz, jazia
Somado ao algoz, simples arritmia.

Antes que mais vozes me invadam,
E meus prados, sitiados, obscureçam;
Teço, teço a renda íntima do sentir
Com o tecido conjuntivo do bramir

Porque em cada poema há uma gota 
de sangue, que infame, brota,
Sem o devido corte, que reboa

No imaginário, este que afoito troa
Nos reinos da criação, galgando nota
Por nota, do indizível que se assoma.

Bruno Borin 

Identificação

Embora do infinito, esteja tão distante
Não sinto a desolação Azul proclamar
Em quadrantes ondeantes, o destoante 
Dissabor, em meu ressonante porfiar.

Da infinitude persigo a comunhão;
De sentir em sentir, trôpego diapasão
Desfaço, unindo a mim Vergéis floridos
E refulgentes pensamentos, brandidos,

Das muitas ressonâncias em harmonia;
Feito celeste tratado, de aplacar a estrelada
Melancolia, matrix da ávida agonia

A peregrinar, cultivando monotonia;
Sobrando ao colher, nada mais que atonia
De seus próprios passos na árida estrada...

Bruno Borin

segunda-feira, 2 de março de 2015

Ourobórica sombra


Da oculta efígie, assombra seu reflexo;
Ignota emoção a pesar na memória,
Encrustada melodia, em amplexo
Cerceando os feixes da ígnea e merencória

Reflexão, sob os habituais códices
Do mesmerismo sem bússola, trançada,
De forma a ser sempre reavivada 
Em crepitantes e ríspidos vértices,

Que cadenciam em esmerados véus
E em negrume envolvem os sentidos
Forçando os lassos dizeres, vertidos
A singrarem condenados como réus

Na tribuna do coração, deambulando
Como o verme na lápide, a roer 
E roer, até o derradeiro sonâmbulo 
Calcinado, em eterno cálculo, esmorecer...

Bruno Borin

À procura de prelúdios

Ao longo do inexistente Pinheiral
O princípio pelo qual caminho
Comista com o fim do fátuo ideal
No solo das Palmeiras que assino

Com minha visão incorrespondente;
Comungando de malogradas alegrias
A lírica boreal e sumista das magias
Que meu mundo compreende.

Se a razão for sacra, ocultista será 
Meu desengano, pois certo perdurará
No alpendre de meus passados dias.

Não importando ao fim, em que benesses,
Ou maledicências morram minhas preces,
Enquanto escuras forem minhas primícias...

Bruno Borin

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Tabulação


Sou um recorte tirado
Das páginas secretas da vida
Rascunho revirado, remontado
Composto de letras perdidas.

Rasguei uma nuvem,
esqueci que existo.
Diante do imprevisto
e da poesia não vem.

Com tanta cor escrita,
perdi a minha, nesta infinidade
E esse prisma que invade,
não me quer, não me acredita.

Fustigado, entre os entulhos 
de mim mesmo, cheio de marulhos.
Não sei o que pretendo encontrar
Se o corpo que não posso saciar,

Ou a alma que tento alimentar.
O que fazer com a paixão,
Escandida com admoestação?
Um amuleto antigo a se corromper

Ou um punhado de versos
Que jamais hão de resumi-la?
Mesmo com tantos esmos
Talvez não consiga abriga-la.

Muito perdi sem ter jogado,
Colho do olvido os suspiros 
Do luar solitário, sem ter amado,
Meus gestos não compreendidos.

É amargo ver as moções desperdiçadas
Em um cotidiano sem colheitas.
Sempre, em sensações remendadas,
Promessas caem, um outono à espreita.

Vida e memória são da mesma sebe
Germinadas; daquilo que se vive
Pouco realmente se concebe
Sem pormenores, inclusive! 

Gastei meus discos solares
Querendo apenas viver,
Mas, dos variegados ares
Pude tão pouco saber...

Bruno Borin

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Palavreado moderno


Essa vida touchscreen vai nos conduzindo
- Seres de toques, tudo na ponta dos dedos
Livros, jogos, pessoas e  até mesmo os medos, 
Estes tantos affairs modernos nos reduzindo...

A magia do apego a si, às coisas e às pessoas, 
É a mesma do desapego a si, às coisas e às pessoas;
Entre as vidas florescem as indiferenças enumeradas
Como a mais pura das espúrias, virtudes plantadas

Das lívidas memórias, amor, passado e futuro, tudo
É o mesmo no conceito, a vida das telas, contagiosa 
Tão vívida, se esboroa no menor delete, prodigiosa
No mais descabido aceite, e a total potência do mudo!

Tantas doces faces, cada uma mais singular e única,
Todas pensando serem singulares e únicas
E ninguém disposto a vestir a umbrosa túnica
Do espectroso silêncio a contemplar severo olvido.  

Meu coração já não conta quantos altares 
Para nenhum devoto, tantos deuses enaltecidos.
Quando voltarão a ser meros fiéis ao real nenhures,
E se comportar como os eternos esmaecidos?

Bruno Borin

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Imaginário


No céu do meu delírio, cor é música
Fecundada nas tintas dos sentidos; 
Verdades infeccionadas de revertidos
Teoremas, pura tradução e mímica

Do olhar distante e prosaico das flores,
Preocupadas apenas com seu colorido florir,
Como se da vida bastasse o singelo sorrir,
Matizando com ideais os tórridos palores.

Fazendo assim descansar os corações,
Do indomável e traumático espetáculo;
Tornando a sensibilidade o receptáculo

Da vida polinizada com pétalas, prismas
De poesia, - a mais raras das monções,
Que aplaca as reais inanições das cismas.

Bruno Borin

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Da escrita


Poderia conceber inúmeras dualidades,
Mas, em nome de um novo rosto,
Diante do oceano oculto de veleidades,
No procurar um dizer, assim posto:

Às portas do pranto, frente ao vazio
Do passo vacilante, não há seguro norte
E a fé talvez abjeta, confirme a má sorte
Produzindo da escrita o negro estio...

Galgar a estrada da poesia é tortura repetida,
Porém, mesmo com o coração cansado,
Versos sempre afloram de uma vida dolorida.

Com a magia de uma memória esquecida
Urge-se contradizer, usando o inventado,
A incerteza de uma trilha reprovada.

Bruno Borin

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O dom da perda


Penso em todas as coisas que perco
E que jamais caberão em um soneto...
Que sei sobre a vida, a não ser o passar,
Onde os segundos, minutos estão a escoar?

Quadras e quadras distantes, a me levar,
Copos e copos a degustar, incoerentes,
Fazem do despir e da exposição um ente
Tão presente quanto o verso a rabiscar

Onde quero transitar? Por pontes invisíveis
Ao palpável desatino? Ou de mãos dadas
Ao infinito desconhecido? Ambas tão atadas
A uma coleção de tramas mágicas e intransponíveis!

Em um verão como esse, brancas são estas escolhas;
Fosfóreas luzes a bramir em uma noite sem estrelas.
Ponto-cruz, creio que seja o meu, e mesmo à desfolhas
Sigo derramando o bordado de um dia sem parcelas,

Desejando algo que tramitasse entre meu querer
E meu sentir, envolto em uma luz que o escurece,
Mas apenas transito entre pontes que esmorecem
Mesmo entre luzes, os artifícios não pavimentam o ser.

As silhuetas primaveris se esvanecem perante 
O banquete das vidas que me comemoram
E as inspirações que sempre férteis, se afloram 
Dançam no vazio do sentimento errante.

A lição das flores é bem clara, suas fragrâncias
São o presente de uma vida bem vivida.
Com o coração quebrado, não tenho saída,
A não ser semear na palavra, minhas infâncias...

Bruno Borin