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sexta-feira, 21 de março de 2014

Cinco sonetos de diluição


I

Como uma nuvem rasgada 
Lembro daquilo que escrevi
Ao estar de alma atordoada
Pelas intensas coisas que vivi

Intensas? Podes imaginar 
Verdades, invenções, alterações
Só me lembro de tantos corações
Meus, teus, vossos a navegar

Diante do que as aparências ofertam
Flores em calçadas, sorrisos em metrôs
Auras limpas pela fé que todos carregam

Contratos com o ideal que  emanam
Sonhos estranhos em inacessíveis platôs
Admirações embriagadoras que dilaceram...

II

E lançam o chão que cai em mim, nostálgico
Comparando a coragem de agora
Com os inúmeros medos de outrora
Concentrando o caminho em um traço trágico 

Que rabisco com o pranto que de mim jorra 
Escondido do meu alento, da minha saudade
Misturado ao deleite e morosidade,
Andando ao gosto do humor, que aflora

Enaltecendo a caminhada; 
Talvez pequenas presepadas,
No oceano das volúveis ideias

Quebrantado por fiordes, asas alçadas
Intentam voos, buscando novas moradas
Porém alcançando sempre mesmas falésias...

III

No esgar do momento
Sou vário, me transformo
Sou eu e me transtorno
Flor sem caule, sem alento

Nutrição que rumoreja sopro
Nascedouro do ar, manjedoura
Das coisas comuns, poesia doura 
A linguagem comum e sem escopo

Que ocorre no quarto, na sala
No gemido e na fofoca 
A criança por mais boboca

Cria poesia quando embala
Refoga-se na alma da época
Do poeta em sua pouca molécula.

IV

Na brancura virgem da folha 
A meridional sensação de desassossego
Desampara, na tensão sem fôlego
Da caneta e; o mundo sem dimensão, molha 

Átimos de tempos fremem a eternidade
Pulsante das letras, fora da gravidade 
O fragor das asas, dos telhados 
- Que nenhum Raio seja capturado!

Porque ninguém sabe de que engenho
Nasce a poesia ou a ideia que a inflama
Ou ainda o que entra no poema!

- O gato passando é intertexto, é floema? 
O passarinho voando é turbulência, proclama
O clarão na boca da palavra, monograma...

V

E peso de cada palavra, fardo de cada sentir
Cada ato, cada passo, cadafalso
Mentira e verdade somam sem advertir
A invenção da vida na qual me alço

Voando fora da asa, procurando
Na mecanicidade do desabrochar
Flores sem glória que, flutuando 
Têm um rumo inexistente a trilhar

Tempo fora do tempo, prestígio
Das plumas morbosas das estrelas
Simbolizando em suas mágicas aquarelas

A verdade escondida do diário martírio
Dos sentimentos humanos: A queda!
Da vida, sua verdadeira moeda.

By: Bruno

Um comentário:

  1. Gosto demais de você. Lindos poemas.

    Ana Angélica

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