sábado, 2 de junho de 2012

Haikais sob a concepção dos taninos.

Três endívias, apenas uma lebre
Uma taça de vinho, duas metades, música
O lanche, os taninos, podem causar uma febre?

***

Não tem borboletas, só lábios
Não tem click, não tem som
Quando velhos, nos tornaremos sábios?

***

A substância da linguiça cortada
Fragmentação, aceboleamento arroxeado
Elogio à música boa que foi aumentada!

***

Civilização manchada
Pureza? Um riso de criança
Pode explicar a ironia anatematizada!

By: Bruno

sábado, 26 de maio de 2012

A ironia


Desce do céu uma luz em solene despedida
Quem desce daquele céu opaco?
Que míope luz corrompe tais córneas sonolentas?
A face ardente dos sóis  aéreos põe-se a perquerir!

Quem cuja estrela anatematizou o enigma do bem e do mal?
Quem cuja onipotência perdeu a validade e tornou-se nada?
Aquele que ensinou o Don Juanismo conheceu por si próprio
As raízes infames da árvore da ciência e do que tal vegetal se nutre

São negros os olhos, tal como o outono do pensamento
Tão languentes os lábios quanto são sensuais os versos do Bocage
E por fim: intelecto tão desconhecido quanto o panteísmo eslavo!

Nos obrigando a versar sob o tempo impiedoso o conceito de vida
Concluimos que singular é a morte que só surgue quietamente uma vez!

E quem desce do céu em solene despedida?
A eternidade, dia após dia, aborrecida pela ironia!

By: Bruno

quinta-feira, 24 de maio de 2012

sábado, 19 de maio de 2012

Balada Múltipla


Nas imagens corridas
Nas palavras partidas
Na fumaça que nos lacrimeja
E até nos vitrais de igreja
Está talvez a paz, para quem a deseja

Arrancando do olho um cisco
Na contracapa de um disco
Nas vozes dos corais
E nas notícias dos jornais
Estão as recordações sazonais

Nos casais impregnados
- De amor
Nos olhares fustigados
- Do desolador
Desamparo ou da má sorte

Há este silêncio de além
A volúpia das lassidões;
O pousar da mão 
Do torpor da redenção

Nos vultos que revivem o passado
Nas orações que evocam a tradição
Mesmo nos rituais que repelem a maldição
Estão os espasmos de esperança fustigados

As lágrimas dos cansados
Os olhares sem vida dos caídos
O azul do grande sonho indeferido
Fazem dos poucos escolhidos, alucinados

E eu... Nunca vi as nuvens sorrirem
Através de um arco íris luminoso
Por entre os ventos ásperos e impiedosos
Eu... Nunca vi as esperas se serzirem...

By: Bruno

domingo, 13 de maio de 2012

Linhas


Odeio o movimento que desloca as linhas
Desordenando por vezes os silêncios das cenas
Gotejado pelas lágrimas das multidões que acenam
Como as marés que não se comovem com estas ladainhas

Dissolvendo a membrana que envolve a ilusão da sua voz
Eu tento não devorar mais uma vez o torpor deixado
Sem motivo ainda tento desvendar as cores do lume manchado
De cada estrela oculta por este negro estandarte segundos após,

Cada palpitação desta medrosa arritmia, abandonar-me cada vez mais
Ao langor da incuriosidade e do descompasso dos dias baços 
As exclamações tornam-se delírios distantes a perder-se de tão artificiais,
Toda vez em que leio nos raios de sol a harmonia do cansaço

Rindo com as vírgulas que brincam felizes tal como passarinhos
Consigo adornar minhas dores com a distração do cotidiano
Derreto o fogo docemente para formar um número palaciano
Até que as flamas sejam apalpáveis e rescendam os burburinhos

E os suspiros doídos dos meus maiores medos, na minha alma,
Aquietados, entretidos pela suavidade crepitante da madeira
À deriva dos transtornos das estações e das sepultadas caveiras
Das memórias já esquecidas que por vezes retornam, por vezes não!

Eu amo a cruzada que as bebidas geladas fazem em nossas gargantas
Tornando acessíveis as cantigas antigas e os versos mais modernos
A mim, a tortura sutil das pequenas alucinações; a elas, uma pureza santa!

Enfim, eu odeio o movimento que desloca as linhas
Porque a eternidade que nós tentamos conquistar 
É uma diva estéril cuja simetria é torta como uma igrejinha!

By: Bruno

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Excesso de utopias



Mesurando suicidamente, o sol do meu sonho não tem nenhuma diferença do real,
Apesar de ele parecer uma estampa de cartolina num céu abobado de outono 
Todavia, esta cartolina é provisória e improviso uma mudança amadora e sem nexo causal

Partindo-me aos pedaços, herméticamente arquejando, por falta de eternidade
Eu me confundo com alguém que mora atrás dos meus olhos
Não idealizar ossaturas floradas é uma inexistência intermitente

Imaginar diálogos dourados de bolor idealizado é um pestanejar
De destino astucioso, independente e imutável, onde posso livre
Navegar tão ébrio e imperativo quanto o sinestésico bateau ivre
Uma existência perene ao meu id despótico e pronto para legisferar

Até ser dissociado por outro e mais vivo jogo de cores e silogismos
Enquanto enlaço meus pensamentos semicerrados à pequenas molduras
Mas mal distinguo o sono do despertar com as hemorragias das ranhuras
Da minha mente fragmentada nas supremas instâncias dos mais eloquentes abismos 

Até mesmo quando os fins da finitude se estabelecem absolutos,
Contra o pó das florações ósseas do meu ego ideal, sempre inspirativo
Nem se faz necessária a tentativa de postergar as iluminações altivas
Porque meu misto de aflição e ânsia nervosa, sem nenhum cacho enxuto
De esperança, trata de me colocar na mais prodigiosa escapada, outra alucinação!

By: Bruno

domingo, 22 de abril de 2012

Névoa


A luz se estreita vagamente
A sombra perde força
A visão se esforça
A voz enfraquece lúcidamente

A fadiga exala lamento
As águas no entanto,
Se movem com todo encanto
Mas a lareira vai perdendo seu alento

Asas que fogem do inverno
Ervas daninhas arrancadas
Dos vasos, com mãos calejadas
Almas que não querem o inferno

Sonhos não lembrados
Traumas esquecidos
Tormentos arrefecidos
Corpos talvez atordoados

Todos esperam calmos
A névoa cessar seu rancor
Pacientes, à mingua do palor
Recitando seus salmos

Para tornar a relva emocionada
Assim os temores uma vez afastados
Afastam também a treva alvoroçada.

By: Bruno

terça-feira, 17 de abril de 2012

Talvez eu deva procurar olhos como os meus...

Talvez eu deva procurar olhos como os meus
Em alguma primavera qualquer
Quando as florações já desbotadas
Estarão cobertas pelo crepúsculo
Acostumadas com a imperícia do meu coração...

Segurando as mãos das noites sentimentais
Me vejo conduzido a procurar olhos como os meus
Porque minha alma é triste como o sino solitário
De uma catedral distante, há muito esquecida...

Não é verdade que o amor é cego
Porque mesmo turvo, aprecia o despertar
Dos botões de cerejas, maçãs, laranjas
Até mesmo das horrendas raflésias
Selecionando com muito cuidado as estrelas
Para as quais direcionar os desejos mais profundos...

Talvez eu deva embarcar em um trem sem muitos passageiros
Selecionar um vagão bem acolhedor e sentar em uma cadeira para a janela
Perder-me olhando para o futuro transpassando o presente aéreamente
Encontrar-me entre visões de cabeleiras que desembarcam estações afora
Quebrando estas visões em pedaços de paisagens lembradas...

Talvez eu deva aprender mais sobre os castelos da antiguidade
Afinal, estão neles, por excelência, os sonhos de grandiosidade
Ou talvez eu deva também observar mais a natureza e seus viventes
Afinal está nela todo o desejo opiáceo de imortalidade orgânica do homem...

Talvez eu deva dar-me mais palavras, pois estas já não comportam minhas alucinações
Mesmo elas sendo simples cenas, acometem horrores estilhaçados em meu coração
Talvez eu deva procurar olhos como os meus
Olhos que acolham sem remorso a desordem do meu espírito
E assim eu não me sinta tão pesado quanto esta tormenta que chove morna e inconstante
Na minha solidão....

By: Bruno

As Pinturas Malditas


Quando a fina trama da vida começa a nutrir-se de desgraça
Manuseada delicadamente e enroscada em fios invisíveis e inescapáveis
Estranho exército de gritos desesperados, procurando miserávelmente a graça
Acabam por revestir-se ainda mais em maldições impalpáveis

Transformando-se na tinta ideal para as mais ousadas pinturas
Acompanhados da boa voz dos anjos que caem dos altos céus, laivados
Imergindo no grande mar de telas, compondo as vogais empilhadas
Junto a consoantes demoníacas, que em êxtase abrem-se em imensas diabruras

E segue por séculos o spleen iridescendo-se na matiz das cores profanas
Circulando nas telas dos versos como nobre seiva incandescente
Nem preciso citar o luminoso ódio que por vezes também é resplandescente;
Caim apunhalando Abel, consagra o início destas maldições arcanas!

Quando uma mão espalmada esconde os precipícios, as bordas dos edifícios,
As pontas das facas, o gatilho das armas; os arco-íris esticam-se frágeis;
Quando a outra mão fecha-se à fome, ao terror, alimentando fervorosa, os hospícios
A natureza rutilante e transtornada, complementa esta calamidade com desastres ágeis!

Porém pouco importa quem tripula este mundo, ou qual será a algazarra derradeira
Porque, mesmo que eu trilhe caminhos obscurecidos, tenho tinta suficiente
Dentro do meu âmago em flama, posto que vivo em um inverno surdo e diligente
Não me sinto guiado por este Éden leproso, nem tolamente acredito em puras cerejeiras

Mesmo cansado ou impassível, coletar estas tintas acaba ninando minha alma,
Trazendo dos abismos flores roxas que ao meu corpo, atóxicas, preenchem-me de sentido
Com licores trazidos dos astros esquizofrênicos me embebedo, mesmo com coração partido
É assim, temendo as visões eternais, chorando prantos infernais, que eu componho, com toda calma,
Estas pinturas Malditas!

By: Bruno

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Considerações noturnas

As estrelas ao presenciarem o afogar de minha consciência
Não estão nem em seu fundo de luz, um pouco surpresas
Nem mesmo quando oferto aos dentes das trevas mais turquesas
O sabor dos sóis artificiais que eu daria com toda ciência
Das lágrimas que despencariam pálidas e apáticas
Ou do sangue que julgo correr ainda vivo por este manequim
Não, eu não mentirei, não hei de querer a ajuda dos Querubins
Posto que perdem-se em mim a podridão das virtudes tácitas!

As sigulares primaveras do pensamento
Também portam armadilhas em suas harmonias
Guiadas por um caminho proibido de especiarias
Que condecoram minha carcaça sem alento
A suave aspereza das mãos do destino desviam
Como mãos que empurram uma cômoda atulhada de planos
A leveza inerte do passar dos descuidados anos
Na medida em que minhas inconstâncias se distanciam

As luzes da noite dobram de súbito
Como espíritos sem pátria que ainda vagam
Sem nunca se lembrarem do motivo de seu óbito
Numa postura despreocupada de olhos que nunca se apagam

E comparo o clarão dos prédios com os das constelações
Vertendo-me no cérebro prodigiosas crepitações,
Sobre meu fim, mesmo que eu acabe vagando vencido
Céu, inferno, que importa? Conforto-me com o desconhecido!

Por tudo o que os céus hão de revelar
Eu sinto em mim o borbulhar do infinito banhando-me
No pranto das alvoradas, na sombra implacável
Imerso em rastros que não posso apagar
Em noites tão sem fundo quanto oceanos congelados
Eu sinto o pavor de sonhar realidades formidáveis
Ilhas mágicas dentre as nuvens, paisagens medievais porém tecnológicas
Cascatas miraculosas e serenos embriagantes...

Porém correndo por ruas pouco alumiadas
Tem-se a paz da equivocada escapada
A paz proveniente da distração causada por neons e propagandas
Róseas olheiras dominadas por vultos maníacos
Vestindo o colorido das estações, profanamente acolhidas
Enquanto o desabrochar das flores rola ignorado
Quando percebo, sem um longo raciocínio
Que perdi um incômodo não reconhecido,
Possivelmente a lucidez da minha alma
Para quem? Nem consigo imaginar...

By: Bruno