terça-feira, 7 de maio de 2013

Coração Cansado



Lágrimas sinuosas escorrendo
Embaçam o brilho do luar 
A inconstância já não pode se firmar

O leito do sorriso se espalha turvo
O sangue flui insustentável
A dor ramifica, mutável

Os pássaros já se foram todos
Só sobra os olhos fixados
No lenho escuro dos galhos

Viver um sonho, sonhar uma vida
Viver perdido na tênue linha 
Que separa o encaixe das estações, sina

De quem guarda o mundo em destaque 
No coração, que embora cansado
De sentir, sempre inspira a alma em desfalque

Devo seguir o vento que emana geada
Dispersando folhas secas de uma árvore
Sob a sombra de seu tronco juncada

Há nele a mensagem que umedece e amacia
Os campos solsticiais da alma
Com o orvalho da harmonia.

By: Bruno

domingo, 5 de maio de 2013

Nepenthaceae


Na fagocitose quimérica dos sonhos de infante
Escorre corrosivo líquido quebrando suas moléculas
Tantálicamente nos fazendo crer nas odes maléficas
Das harpas da vida, a percorrer os ouvidos, excruciante

O sangue borbulha perante o fugaz delírio
E o corpo sorri em terrível febre 
Acomete a mente, fulgor vasto e célebre
Condicionado a brilhar de modo litargírio

Na introspectiva dissolução da quitina
Pensamos nos conhecer profundamente
Ao ver nossas moléculas nadando profusamente

Impalpável desejo da retina
De ver além do que não é concebido
E de ouvir sinestésica, seu frustrado bramido.

By: Bruno

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Lágrima


Nos obscuros desvãos da cognição
Apalpando a realidade, seus estofos laminados
Se confundem com os ares perfumados 
Do onirismo vago e sem pretensão 

O sol cobre-se de brancura e a lua de um laranja
Desgostoso, quente é o destino monstruoso
Que se mostra aos poucos tempestuoso
E permeia o céu com baça franja

Nestas condições, a lágrima furtiva
Se faz roçar na alva pele 
Hábil e pérfida fugitiva

Atravessando clandestina
A fronteira misturada da verve
Entre sonho e realidade pungitiva.

By: Bruno

Gravura

Preciso de um verso
Que denuncie o estro
De minhas chagas,
Sensações vagas.

Transcrever um universo
Num simples verso
Evidenciando do amor
Seu volumoso frescor.

Meu jardim em miniatura
Mistas pétalas bruxuleantes
Paralisadas em gravura

Vocábulos que anseiam aventura
Vivas cores galantes
Que voluntariamente se torturam...

By: Bruno

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Aparição


Num salão branco e pueril, dentre as personas, noto
Que os cortinado escarlate e vestidos sensuais,
Abafavam os insondáveis e ecoantes ais
Enquanto um pequeno vulto dentre muitos, devoto

Declamava as sensações, os gestos e os ares
Diante daqueles frios, fluidos, esquálidos pilares
Os rodopios vocabulares, encabulados e uníssonos
Afirmando a afonia dos urros horríssonos

Do Jabberwocky, lá fora esvoaçante
Calmo assombro ficto;
Jabberwocky de veneno massacrante

Sem a espada Vorpal, sem grimório, ante
Aos tórridos rosnares, no mundo onírico;
Que podia fazer senão declamar tais versos errantes?

By: Bruno


sábado, 13 de abril de 2013

Eu sou tua presa


I

Eu sou tua presa,
Estou sujeito às formas crepusculares
Dos teus desejos

Eu sou vulnerável,
Completamente propício a cair nos teus altares
Sem emitir algum arpejo

II

Agora, meus ais, meus soluços
Velhos fantasmas bêbedos
Desfilam sóbrios e lêdos
Por entre os sentidos que aguço

Na tentativa de sentir tua totalidade
Me sentindo banhado na fragrância
Da tua alegria, da tua moderna etimologia
Não vês? - Me envolveu em teu véu de serenidade!

III

O fog já não faz meu coração palpitar
Como teus olhos graves e perceptivos;

Como flores de uma só haste
Há muito me rendi ao nosso leve contraste.

By: Bruno

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Renovação

Em turbilhão, o desejo do impossível
Polarizava as minhas histerias somaticamente
Fazendo o lume das fantasias infantes, bruscamente
Se despedaçar, tornando minha sânie aterradoramente falível

Os sóis que pousavam em meu peito, a um pesar fragmentado
Se assemelhavam e, fragilmente sustinham os altares
Da minha crepitante lucidez, flor regada com sangue desalentado
Enquanto eu navegava desorientado por impassíveis além-mares

Eis que surge um clarão relocando de lugar as certezas
Purificando as vastas florações leprosas que haviam,
Provocando novas torturas, em substituição às que feneciam;
A doce paixão, doces dias que me rasgam com franqueza

Vejo nas novas auroras do meu sangue
A exponente radiação do honesto pranto
Sem corroer, apenas lavando as confusões langues
Que continuam surgindo sem o meu comando

Medindo pelo ritmo descompassado da minha sístole
Não há porquê perguntar às almas passantes, sobre a minha condição
Sei dos astros fragilizados que compõem a verve do meu coração
E por isso eu abdiquei de parte do meu controle,

Aos rosários que eu vi em seu coração calejado,
Aos cedros de sua imponência
Eu devo a impertinência,
De com toda segurança ter me apaixonado!

By: Bruno

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Psicologia da inércia


No embotamento crasso dos meus sentidos
A incógnita psique que me sabotou a cognição
Evidencia pingando seu morno sustenido
Na convulsiva distorção da minha encefálica vibração

A inexperiência dos meus vocábulos,
A absorção livre associativa dos difusos relevos,
Lapsos que me perquirem o quanto eu ainda devo
Frente à labiríntica intromissão a que me atrevo

O histerismo danado que me tortura
Semeia o plasmático assombro
Que carrego em meu hirto ombro

Sobre a afetação das minhas próprias limitações
Eis que percebo a minha síncope mnemose
Tentando abstrair estes ignotos fonemas por osmose!

terça-feira, 2 de abril de 2013

Delirium tremens



A lâmpada ao estirar sua luz em cascata
Lambe o brutalismo da minha inconstância
Na aglutinação dos surtos, à varzea desta instância
Me flagro degenerado em minha virtude psicopata

As sucessões de perquirições estranhas
Que me assolam o encéfalo ebuliçoso
Tateiam como centenas de aranhas 
Em minha carne virginal e morosa

A realidade se delicia, fragmentada diante dos meus poros
Enquanto o humus dos meus pulmões babuja
Esquizóidemente a minha respiração e tripudia
O meu destoado desconsolo

Há muito perdi o rastro do substractum secular
Dos meu mundo onírico, enquanto a síntese má 
Dos fatos empíricos jamais me perdoará
Alegorizando a afonia das matérias polutas à notivagar

Permeando a epigênese da minha insonia
Na amorfia irrupta da consciência ululante
De animal sensorial. É nesta imperícia
Que se segue meu despotismo interior redundante.

Em cismas psicanalíticas me perco
Do meu próprio distorcido espectro
Na trama fatal que me cerco
Que flameja vibrante tal como fogo fátuo

E os mesmos siderismos crepusculares da alma 
Me impulsionam neste panscosmologismo 
Do fibroso arauto do neologismo 

Remetendo o valor da unidade da calma
Que antes era procurada nos prazeres vítreos
E que agora aspiro de ti, e consigo meu pouco equilíbrio.

By: Bruno

terça-feira, 26 de março de 2013

Ao cair da noite, me hospedo


Uma pétala que cai
É como um papel que se rasga
O vento a carrega
Mas sua cor não sai

A tinta também se rompe
Porém não se desgasta
Apenas se separa
Mas não se corrompe

Ao cair da noite, eu me hospedo
Em meu próprio coração
Numa aldeia em meio a grandes rochedos
Ouvindo o soluçar da fibrose, medito

Aqui a lua não parece tão brilhante
Quanto a que eu vi por baixo de suas pupilas
Aqui chove por toda a parte, incessante
Mas os brotos de acácia ainda jubilam

Volto para o céu, meus suspiros
A quietude que adeja à torrente
Dói a vista, mas a faz sorridente
Fenecendo a rutilância branca deste delírio

Uma pétala que cai
É como o sal das lágrimas 
É um eco que nunca se esvai.

By: Bruno