segunda-feira, 9 de abril de 2018

Da pulcritude


Meu amor, quantos abraços me deste?
Navegando em azul oceano, sua luz,
Tão estimada! Foi meu grandioso leste;
Contra o destino traçado, nada opus! 

Contra mares avessos singrei corajoso
Tendo seu ideal como coloridas velas.
O "preparo do céu" se fazia bem jocoso;
A tormenta não abalaria as Caravelas!

Mas segui avulso ao país desconhecido,
Içei velas aos quatro ventos da inspiração;
Ao seu mundo adentrei e hoje, unido,

Persigo as ramagens etéreas da criação,
Onde a pulcritude ramifica absoluta;
Os gestos de amor são mais que conduta!

Bruno Borin


domingo, 1 de abril de 2018

Lembrança de Ostara


I

Viviam em uma época lúdica e antiga
Um pássaro lindo, de azul plumagem
E uma deusa amável, digna de cantiga;
Eles brincavam com crianças na folhagem

Pousada a cantar, a ave de tão mágica
Quanto a deusa, sua melodia de amores
a transformou em um coelho num átimo;
Todos celebraram o feito com clamores!

Passaram as estações, a lebre triste,
Triste ficara, nem a deusa podia ajudar 
Sem poderes durante o inverto em riste!

Quem sabe na primavera, a deusa forte
Pudesse de volta a ave transformar? 
Dito e feito! Floriu o tempo de sorte!


II

O lindo pássaro azul pôde cantar e voar
Novamente! E em felicidade real e suprema
Quatro ovos botara! Num ninho de alfazema,
Para cada estação do ano nunca se olvidar!

O pássaro, após algum tempo, em lépida lebre 
Retornara! Agradecido seus tenros ovos pintou 
Para os quatro cantos do mundo os distribuiu
A deusa tão enternecida, em seu trono de sebe

Reconheceu o ato danoso ao arbítrio dos seres
E tatuou no rosto da lua esta bela mensagem
E até hoje podemos ver estes belos saberes:

Uma silhueta de coelhinho, em nome de Ostera!
A Era de Ouro nos lega esta inocente imagem...
E Contar uma historinha destas, quem me dera!

Bruno Borin

quarta-feira, 28 de março de 2018

Derruído


O pranto é uma dança morta
Cor sangrenta de artista
Altar dos sonhos catatônicos
Onde o corpo, sudário de pele
Demarca em gotas de fogo
O sentimento vago e líquido
De não se conhecer tanto assim...

Não sei se moro na chuvosa saudade
Ou na quente presença do amado
Não sei se é falência das coisas
Um eu sempre se esboroa
E dá forma ao poema incógnito
Laivando meu corpo de algo manifesto
Construído ao acaso, do não saber
Daquele precisar escrever 

Nada sagrado arranquei com as mãos
Apenas uma cacofonia metrificada
Que me guia até você
Me convidando para um baile às cegas
Onde nosso corpo real baila
Em procissão, bordados em oiro
Miragem aguada metida em lã vermelha
Desfolhando chuvas sem molhar

Ahh... Deuses do amor 
Dentro de suas estátuas derruídas,
Já sentiram tal saudade?
Tal amor sublime e vivo dentro de si? 

Redemoinhos do meu sentir
Me preencham de phantomes
Recuso a luz branca e vazia
Não me larguem de você, amado!
Porque não sei mais ser sozinho...

Bruno Borin


sábado, 17 de fevereiro de 2018

A sad sonnet


O my sleeper echo maiden
Bright be thy sweet face:
Sorrow is a Shadow raven
Pity, is so severe thou ache!

Who consumes thou pureness
I know thou havest been imersed
In the obscure dome of sickness
Such cold, fragile touch, cursed...

Fall in love with such dead boy
No good would make, and cry
Is no longer a way, dry like soy,

Thou eyes are. If loneliness was all;
But the dead wants the pure ones
To join them in the great nightfall.

Bruno Borin


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Nigredo


À Baudelaire

"Flectere si nequeo superos, Acheronta Movebo"
- Virgílio

Preso na noite de um verão gélido
Sonho, numa onda calma e negra
A quadra de uma soberania hedra
A galgar os céus num voar tépido:

Ansiando fazer sentidos de grandeza
Atrapado na densa, espargíria sensação
Baudelaire! Te penso em sua rudeza
A poesia é o único abrigo da invenção!

Mas não qualquer criação! O etéreo Eu!
Aquele de paletó ideal, A quem abraça
Somente o grande inverno do plebeu
Que cultiva a dor em campo de lavra! 

Porque na folhagem incerta do destino
Floriu! Não um lugar no de todos, Mundo. 
Onde o corpo do beijo dorme, bem fundo:
Fonte do vinho mais velho, bordô menino!

Esotérico lugar, de difícil entendimento,
E o pior! Sem óbolos para o barqueiro!
A estética é o único presente rudimento,
Das auroras roubamos cores pr'o tinteiro!

Fiz deste tinteiro meu estimado ébrio barco
Porque não quero do real, os parcos cobres
Estes só salgam os coágulos de meus odres;
Perdido em brumas violentas,  reteso o arco...

Mirando nos lamentos, mataria mil sóis
Para agarrar apenas uma noite eterna!
Eu teria gostado de acordar nos arbóis
De uma nova percepção, e ser primavera

Eu teria gostado de despertar um povo...
De tecer hipocampos sem algum pranto
Mas prossigo num dançar pálido, covo...
Ainda faço do torpor o meu querido antro.

Bruno Borin



domingo, 28 de janeiro de 2018

Amor à Moda trovadoresca


Se estiveres vivendo um romance
Não deverias evocar o amor perdido
Aquele  erro à mui custo esquecido:
Não o troques por algo sem alcance!

Ao escreveres o poema tenhas Ele
E seu olhar e gestos furtivos contigo
Para que a poesia o tenha em abrigo:
Tua querência advém porque és querido!

Para as quadras finais, lembranças: 
Deixes os primevos dias de amor 
E o despontar do sorriso acolhedor

E a promessa do sempre a invadir
A emenda que se faria sem tardança
A um soneto de amor a se escandir. 

Bruno Borin

Fly me to Zenith



Do ofício e do artifício conjugados
como o faro e os cães, no dia de caça,
resta a fronteira sonora que atravesso
transformado em sintaxe.

- Lêdo Ivo

Para além do mundo
Meu olhar tece uma vida
Firmada em imaginação
Uma fauna que não contém
Somente leões e tigres
Mas Quimeras e Unicórnios
Povoando florestas jamais visitadas
Porque meus milênios dissolveram-se
No pó dos poemas épicos do passado
Onde a história e o mito se confundem
E os deuses já corpóreos, lutam nossas batalhas
E o descalabro da vida vence as leis nefastas
Que se publicam com o aval do dinheiro
Vivo num horizonte expulso de expectativas
Primoridial como o Oceano, meu desejo
Se inscreve nas tabuletas do Eu 
Como os feitos de Gilgamesh
Foram escritos nos registros Acádios
Mas não esqueço de olhar com tristeza
Para este meu país palustre 
Onde multidões mastigadas
Se divertem enquanto a poesia ecoa
Muda, tetraplégica na alma dos homens
Porque se a poesia salva um afogado
Deixou morrer Li Bai, abraçado à lua
Me deixando desprovido de símbolos
Apenas eu e o céu vertiginoso da escrita
Navegando no fel da estrelas mortas
Zênite ou Órion, soletrando a ferrugem dos dias
Em lágrimas calcinadas pela chuva...

Bruno Borin 

sábado, 20 de janeiro de 2018

Soneto épico

"Àquele que o abismo viu"

Penso num longínquo pretérito
Antes mesmo da forja da espada;
Os reinos se ganhavam por mérito,
O bronze brandia na selva calada!

Ele, guerreiro, que o abismo viu
Deu forma à poesia, vinda do barro
Glória de rei eterno, o Dilúvio viu
Dos mitos o primeiro grande achado!

Mais épico que Eneida, herói nosso!
O mundo reconstruiu, portões abriu;
Humbaba o temido, destruiu!

O primeiro grande épico esboço:
A Jornada, a luta e o pesar sentiu,
A Acádia lembra seu esforço!

Bruno Borin

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Indolência


"O teu nascer constante
Traz castigo
Os teus ressuscitares
Serão prantos"

Hilda Hilst

Em meu corpo de abismo
Perdi um castelo inteiro!
Mil escadarias de achismo
E um menino bem arteiro...

Desfiei luzes revoltosas,
Dessas que tudo consomem, 
E não vingam, nodosas;
Nascem vagas e morrem...

Inventar líricos enganos:
Ofício da beleza ou fardo?
É trama de poucos insanos

A verdade tem jeito de rosa
A mentira aroma do cardo 
Na poesia viram lindos ramos...

Bruno Borin

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Formação do poema


Esse poeta em mim sempre morrendo
Procura na altivez da minha cegueira
Ramagens doridas, incendidas, tecendo
Uma travessia esquecida, na fronteira

Dos meus abismos lavados de sangue,
Semeando na amplidão já mui florida
Ventos familiares à emoção langue,
Colhendo o sumo das pétalas erguidas

Como quem passeia, em desassossego,
No lívido silêncio da lua enlutada
De quebrados sonhos, qual desapego;
Uma agonia errática, inflamada,

Sempre íntima, alma adentrando
Desafinando as cordas de minha 
Cansada geometria, nela forjando 
Uma concisa dor que se aninha

Intimamente, ao agonizante plexo,
Imperiosa infecção, enevoa os anelos
Com misteriosos sentires desconexos,
Com Píreos festivais nos vastos castelos

É assim, a poesia, meu estimado exílio:
Cadeciam-se os versos com fascínio
Como se tomassem as dores do peito,
Tons de ouro e velassem a vida sem eixo!

Bruno Borin