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quinta-feira, 21 de julho de 2016

Emancipação



Sem vinhos e viandas
Como pagarei a Fiança
Dos dias malogrados;
De ais e tédios sagrados?

Dias em que era proscrito
De mim mesmo, cultivando
Uma imaginária desdita, 
E na decadência enlevando

A vida com desejos brumosos;
Em sonhos represados,
Demasiado fantasiosos,
Para um caminhar Imolado. 

Prostrado em minha própria alma,
Vivia de enredos bizarros,
Enrolado em liriais cortinados,
Fitando o Novo com olhar fatigado...

Minhas saudades eram olhos e bocas
Jamais tocados, Memória fustigada,
Por fantasias quebradas e loucas,
Que desmontavam o viver esperado.

Sonhei que conhecia todas as cores, 
Para não admitir meus reais palores;
Colhia do mais embriagado luar,
O meu ideal e pesaroso divagar.

Me sagrei Pierrot, ergui Catedrais
Sem qualquer louvor, velas acesas;
O Encanto era falso dono de meus ais;
Nas tristezas que recebia sem surpresa.

Pobres enleios de Carmim,
Me sentia tão dentro de mim,
Que os azuis do céu, do mar,
Eram nada mais que um estorvar:

Uma ternura tão friorenta
Quanto a vida que se esvaía:
No jardim, as plantas morriam,
De uma fome de Amor sedenta!

E qualquer brilho d'oiro era prumo:
Amava pintar as grades do peito;
Tingir os famigerados lençóis do leito
Com gozos de Aurora falsa e sem rumo!

Piedoso com a vida que não tinha,
Me arrefecia nos ares que retinia:
Uma Solombra de fulgores amarantos.
E vivia muitas mortes em meus mantos;
Me semeava e me colhia em papéis,
Que acreditava que nunca se repetiam! 

Bruno Borin